Prólogo - Volume II

O ano em que o silêncio começou a falar

Este segundo volume inicia-se como quem abre uma janela numa manhã fria: o ar é o mesmo, mas a nitidez é outra. O ano de 1976 chega com a sensação de continuidade, sim, mas também com a suspeita de que algo começa a mudar de forma subtil — quase invisível a olho nu, mas inevitável para quem acompanha de perto esta jornada.

Se o primeiro diário era um terreno ainda por lavrar, ingénuo, marcado pelo encantamento inicial da adolescência e pelo desassossego dos primeiros afectos, este segundo volume apresenta um adolescente que começa a escutar o próprio silêncio. Há uma maturidade crescente, não anunciada mas pressentida, que se infiltra nas palavras, nos gestos, nas hesitações. A paixão pela Dila, longe de desaparecer, transforma-se em corrente subterrânea: mais profunda, menos impulsiva, mas ainda presente como uma sombra que acompanha cada passo, mesmo quando não é nomeada.

O quotidiano, aparentemente igual ao do ano anterior, começa a revelar fissuras: amizades que já não encaixam tão bem, rotinas que deixam de servir, pequenas inquietações que despertam no meio de tardes sem história. A presença constante do Benjamim, a proximidade instável do Manel, o ambiente familiar carregado de silêncios — tudo isto ganha novos contornos, mais densos, mais complexos, como se o narrador começasse finalmente a ver o mundo com uma lente mais precisa.

Há também um despertar intelectual e emocional que se adivinha nas entrelinhas: a leitura passa a ser refúgio e descoberta, o karaté torna-se disciplina e identidade, a escola deixa lentamente de ser apenas cenário para assumir um papel mais exigente no caminho do narrador. Começam a surgir reflexões inesperadas, lampejos de consciência que, até aqui, estavam escondidos atrás da timidez e do medo de sentir demasiado.

Este diário acompanhará o leitor por um ano que será tudo menos neutro. Serão meses marcados por perdas silenciosas, por conquistas quase secretas, por escolhas que começam a moldar um futuro ainda por definir. Haverá quedas e ergueres, afastamentos e reencontros, dias que parecem não dizer nada mas que escondem tudo. E, em todos eles, uma pergunta constante a amadurecer: quem se torna um rapaz quando começa realmente a olhar para dentro?

O Volume II não é apenas a continuação de um percurso — é o aprofundar de uma identidade em construção.

E convida o leitor a entrar, respirar fundo e seguir viagem: o que vai acontecer a seguir não se anuncia com estrondo, mas com essa força quieta que só os verdadeiros começos possuem.