Seguir em frente dá menos trabalho
Quinta-feira, 3 de Junho de 1976
A manhã começou sem drama. Acordei ainda com algum peso nos ossos, mas nada que não se resolvesse com água fria no rosto e um pouco de vontade bem aplicada. Estudei o necessário. Nem mais, nem menos. Começo a perceber que o exagero cansa tanto como a preguiça.
O almoço foi simples e funcional. Há refeições que não pedem conversa nem reflexão — apenas cumprem o seu papel, como um ponto final bem colocado.
De tarde fui para o liceu. As aulas sucederam-se com normalidade. Estive atento, participei quando foi preciso e calei-me quando não havia nada a acrescentar. Já não sinto aquela urgência de preencher o silêncio. O silêncio, quando é honesto, também ensina.
Nos corredores observei o movimento habitual: grupos formam-se e desfazem-se, gargalhadas exageradas, importâncias inventadas à pressa. Passei por isso tudo sem me deter. Não por desdém, mas porque já não me reconheço ali.
Regressei a casa com tempo de sobra. Ao fim da tarde li um pouco e deixei a cabeça repousar. Senti uma espécie de estabilidade nova, ainda frágil, mas real. Como uma mesa que deixou de abanar depois de se lhe calçar finalmente a perna certa.
A noite caiu sem resistência. Jantei, escrevi estas linhas e fiquei algum tempo em silêncio. Não houve nostalgia, nem balanços desnecessários. Apenas a sensação tranquila de quem sabe onde está, mesmo sem saber ainda para onde vai.
Deitei-me com o pensamento limpo. Seguir em frente não é um gesto heróico — é só uma decisão repetida todos os dias.
E, por hoje, foi suficiente.
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