O atropelamento do "Bobi"
Domingo, 15 de Agosto de 1976
Há dias que nos atravessam como lâminas. Este custa até a escrever.
A manhã não prometia tragédia. Era mais um dia comum, desses que se deixam viver sem pressa. Nada anunciava que a dor ia bater à porta — ou melhor, subir a rua.
O Bobi foi atropelado numa rua acima de casa.
Ainda agora me custa escrever isto. Quando cheguei junto dele, senti um frio que não vinha do vento. Estava muito ferido. Não quero — nem consigo — descrever o estado de uma das patinhas da frente. Há imagens que ficam gravadas com demasiada nitidez.
Olhei-o nos olhos. E juro que vi lágrimas. Talvez alguém diga que os cães não choram assim. Que é apenas reflexo, dor física, instinto. Não me importa. Eu vi tristeza ali. Vi sofrimento. E vi confiança — aquela confiança inteira que só um animal entrega.
Passei o dia inteiro em cuidados com ele. Improvisámos curativos. Telefonámos a veterinários — nenhum atendeu. Era Domingo, e a vida, quando dói, não consulta calendários.
Mais tarde, um homem veio a casa e colocou-lhe uma tala na patinha. Fez o que pôde. Mas vi-o torcer o nariz. E esse gesto pequeno pesou mais do que palavras.
Em casa ninguém tinha apetite. A mesa ficou quase intacta. O sofrimento do Bobi ocupava todos os espaços. Ele, que tantas vezes me fez companhia quando eu me sentia só, estava agora dependente de nós para tudo. E eu sentia uma impotência feroz. Daria qualquer coisa para trocar de lugar com ele.
A noite arrastou-se. Cada gemido era um golpe. Cada movimento mais brusco fazia-nos levantar de imediato. Só por volta da uma da manhã ele acalmou. O cansaço venceu-nos quando já não havia forças para mais.
Fomos dormir tarde, mas não descansados.
Hoje aprendi outra coisa sobre o amor. Não é apenas alegria partilhada. É vigília. É cuidado. É sofrer porque o outro sofre.
E há uma inocência nos animais que nos desarma. O Bobi nunca me pediu nada. Apenas esteve. E hoje, ao vê-lo assim, percebi que o laço que nos une é mais fundo do que eu imaginava.
Há dias que nos roubam um pouco da leveza. Este roubou. E deixou silêncio.
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