Epílogo - Volume II
Chego ao fim destas páginas com a estranha sensação de que não terminei nada.
Talvez porque crescer não funcione assim, não há um ponto final nítido, não há um momento em que possamos dizer “pronto, agora já sei”. Há apenas camadas. E quando achamos que entendemos alguma coisa, a vida muda ligeiramente de posição… e obriga-nos a olhar de novo.
Este tempo não foi feito de grandes acontecimentos. Foi feito de pequenas insistências. Pensamentos que voltavam sem serem chamados. Silêncios que duravam mais do que deviam. Expectativas que se desfaziam devagar, quase com delicadeza, como se não quisessem magoar, mas magoassem na mesma.
E, no meio disso tudo, fui ficando.
Não fugi, como antes talvez tivesse feito. Fiquei dentro das perguntas, dentro das dúvidas, dentro dessa inquietação que não tem nome certo. E isso mudou-me mais do que qualquer resposta clara alguma vez poderia ter mudado.
A Dila… não foi apenas uma pessoa nesta história. Foi um ponto de viragem. Não pelo que aconteceu, mas pelo que não aconteceu. Pelos espaços em branco que me obrigaram a imaginar, a interpretar, a sentir mais do que era visível. E é curioso como, às vezes, aquilo que não se concretiza deixa marcas mais profundas do que aquilo que chega a existir por completo.
Durante muito tempo achei que precisava de entender tudo, cada gesto, cada ausência, cada mudança de tom. Como se a clareza fosse uma espécie de salvação. Como se, ao compreender, pudesse finalmente descansar.
Mas não. A vida não se explica assim. E as pessoas… muito menos.
Há coisas que simplesmente são interrompidas. Outras que nunca chegam a começar. E outras ainda que existem apenas dentro de nós, intensas, reais, mas invisíveis ao resto do mundo.
Aceitar isso não foi imediato. Houve resistência. Houve aquele impulso de voltar atrás, de rever tudo, de tentar encontrar o momento exacto em que algo poderia ter sido diferente.
Mas a verdade, crua, sem enfeites, é que esse momento talvez nunca tenha existido. E foi aí que algo mudou.
Deixei de procurar o “e se” e comecei, devagar, a aceitar o “foi assim”. Não como resignação. Mas como libertação. Porque há um tipo de paz que só aparece quando deixamos de negociar com o passado.
Também aprendi a reconhecer o valor dos dias aparentemente vazios. Aqueles que, na altura, parecem não acrescentar nada. Dias em que nada acontece, ninguém diz nada importante, e o tempo passa quase sem deixar rasto.
Mas agora vejo, eram nesses dias que algo se reorganizava por dentro. Sem espetáculo. Sem anúncio. Apenas… acontecia. Como se o coração, cansado de tanto ruído, precisasse de silêncio para voltar a funcionar direito.
E talvez seja isso que levo comigo deste percurso. A compreensão de que sentir não é fraqueza. Mas também não é direcção.
Sentir muito não significa entender melhor. E entender melhor não significa sofrer menos. Significa apenas… sofrer de outra forma. Mais consciente. Menos caótica. Menos urgente.
Hoje, olho para trás e não tento corrigir quem fui. Havia ingenuidade, sim. Havia intensidade a mais, interpretações precipitadas, expectativas que cresciam sem base sólida. Mas havia também verdade. E isso importa. Porque, no fim, não somos definidos apenas pelo que acertamos, mas pela forma como atravessamos aquilo que não conseguimos controlar.
Não sei exatamente o que vem a seguir. E, pela primeira vez, isso não me incomoda tanto.
Há uma espécie de confiança discreta a nascer, não nas circunstâncias, nem nas pessoas, mas em mim. Na capacidade de continuar, mesmo sem garantias. Na certeza de que, aconteça o que acontecer, saberei lidar… de alguma forma.
Talvez seja isso crescer. Não deixar de sentir. Mas deixar de depender do que se sente para existir.
Este não é um fim. É apenas o momento em que deixo de procurar respostas urgentes… e começo a aceitar perguntas duradouras.
O resto, como sempre, virá no seu tempo. E, desta vez, eu espero. Sem pressa.
O resto… ficará para as próximas páginas.
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