Volume III - “Entre o Ardor e a Queda”
Prólogo
1977 não começa — arrasta-se.
Vem ainda com o eco do ano anterior, como um corpo que não acorda inteiro. Há um resto de euforia, uma chama recente que ainda aquece as mãos, mas que já não ilumina como antes. O amor, esse primeiro grande território conquistado, não desaparece, complica-se. Torna-se denso, irregular, quase um campo de batalha onde o coração avança sem estratégia e recua sem dignidade.
Este é o ano em que sentir deixa de ser simples.
Nos primeiros meses, há ainda o impulso, declarações, reencontros, promessas que parecem eternas no exacto momento em que são ditas. Mas logo surge a fissura. Pequena, quase invisível. Um silêncio fora de lugar. Um gesto mal interpretado. E, sem aviso, o que era leve torna-se pesado. O que era natural começa a exigir esforço.
A partir daí, tudo se inclina.
As relações fragmentam-se, não por falta de sentimento, mas por excesso dele. Há orgulho, há cegueira, há uma incapacidade quase cruel de ver o outro como ele é. Ama-se com intensidade, mas também se fere com precisão. E o mais inquietante, muitas vezes sem consciência disso.
O mundo exterior continua, escola, rotinas, projectos, idas e vindas, mas perde cor. Os dias tornam-se mais curtos por dentro. Há momentos em que nada merece ser escrito, não porque nada aconteça, mas porque tudo parece vazio.
E no entanto, algo cresce.
No meio da confusão, começa a surgir um pensamento mais nítido. Ainda desorganizado, ainda instável, mas já com sinais de estrutura. Como se, no meio do caos emocional, nascesse lentamente uma consciência. Uma tentativa de compreender, não apenas o que acontece, mas porquê.
Mas esse crescimento tem um preço.
A segunda metade do ano mergulha mais fundo. O amor deixa de ser refúgio e passa a ser tensão. Ciúmes, rupturas, reconciliações frágeis. Há dias em que o sentimento parece maior que a própria vida, e outros em que cansa, sufoca, esgota. “Tanto amor já cansa”, e nessa frase cabe um ano inteiro.
Ao mesmo tempo, o olhar alarga-se.
Já não é só o coração que fala. Surgem perguntas sobre a vida, sobre Deus, sobre o sentido de tudo isto. Há revolta, dúvida, uma vontade de desmontar o mundo e perceber as suas engrenagens. Nem sempre com lucidez, mas sempre com intensidade.
E no fundo, há dor.
Uma dor que não é contínua, mas que regressa. Nos conflitos, nas perdas, nas palavras que ficaram por dizer. Nos gestos que, à distância, revelam uma dureza que na altura parecia força.
1977 é isso, um ano que começa com o coração aberto e termina com ele em tensão.
Não é o fim da inocência, é algo mais subtil. É o momento em que a inocência deixa de proteger. Em que sentir passa a ter consequências. Em que o amor já não é apenas descoberta, mas também confronto.
E talvez por isso este seja um ano decisivo.
Porque, no meio do excesso, do erro e da queda, começa a nascer qualquer coisa rara, a consciência de si.
Ainda imperfeita. Ainda crua. Mas irreversível.