A mão desenha, a mente vagueia
Dezembro de 1975
Semana 5
O dia abriu-se cinzento e quieto, como se o mundo tivesse decidido falar baixo. Levantei-me sem vontade de contrariar nada e deixei que a manhã me levasse sem pressa. A casa parecia maior do que o costume, talvez por falta de ruído, talvez por excesso de pensamento. Para fugir a isso, procurei o que estava mais longe de mim e mais perto ao mesmo tempo. As serras.
Fiquei a olhá-las pela janela durante algum tempo. Não pedem nada, não respondem a nada, e talvez por isso ajudem. Peguei num papel e num lápis e sentei-me à mesa. Comecei a desenhar sem grande plano, só a seguir linhas, contornos, sombras. A mão sabia o que fazer. A cabeça, não.
Enquanto o desenho avançava, fui-me perdendo noutras coisas. Não eram ideias claras, eram fragmentos. Caminhos que ficaram a meio, conversas que nunca existiram, decisões que ainda não tomei. Havia uma espécie de confusão tranquila naquele momento. Como se, no meio do barulho cá dentro, o papel fosse o único sítio onde tudo fazia algum sentido.
O tempo passou sem se anunciar. Quando dei por isso, a luz já tinha mudado e as serras tinham ganho outro tom. Continuei a desenhar até não haver mais nada para acrescentar. Não porque estivesse completo, mas porque eu estava cansado. À noite, voltei ao quarto com aquela sensação estranha de não ter resolvido nada… mas de ter aguentado o dia.
No dia seguinte, levei o desenho para fora. Precisava de ar. Sentei-me no quintal, com o caderno no colo, e deixei os olhos fazerem o trabalho antes da mão. As árvores, a sebe, o galinheiro ao fundo. Coisas simples, sempre no mesmo sítio, indiferentes ao que me vai acontecendo.
Comecei a desenhar devagar, a tentar apanhar os detalhes que normalmente passam ao lado. Os ramos tortos, os limões firmes, o movimento leve das folhas com o vento. O som das galinhas vinha de fundo, constante, quase como um relógio diferente.
Ali, o silêncio não pesava tanto. Havia qualquer coisa de estável naquele espaço. Como se tudo continuasse no seu lugar, independentemente do resto. O lápis foi seguindo esse ritmo. Sem pressa, sem exigência.
A certa altura, dei por mim a respirar melhor. Não foi uma mudança grande, foi só um ajuste. Como quando abrimos um botão do casaco porque o aperto já incomoda. Fiquei mais um bocado, a terminar o que tinha começado, e depois fechei o caderno.
Antes de entrar em casa, olhei outra vez para o quintal. Nada tinha mudado. Ainda bem.
O último dia do ano chegou sem cerimónia. Um dia igual aos outros, mas com esse peso invisível que as datas trazem. Acordei com a ideia de que devia arrumar alguma coisa dentro de mim, mesmo sem saber bem o quê.
Saí para a rua. A Vila tinha aquele ar estranho de fim de ciclo. Crianças com brinquedos novos, gente a preparar a noite, um frio mais seco no ar. Fui andando sem destino, como tenho feito nos últimos dias, à espera que o movimento de fora me ajudasse a perceber o de dentro.
Pensei no que fica e no que não fica. No que vale a pena carregar para o ano seguinte e no que devia ser deixado aqui, neste dezembro que já começa a cansar. Não é fácil decidir. Há coisas que doem, mas ainda assim custam a largar.
A meio da tarde tentei ler. Não consegui. As palavras não se fixavam. Havia sempre qualquer coisa a puxar-me para outro lado. E acabei por aceitar isso. Nem todos os dias servem para avançar. Alguns são só para perceber onde estamos.
Ao cair da noite, o barulho começou a crescer lá fora. Risos, vozes, preparativos. Fiquei um bocado à janela a ver a rua ganhar vida. Há sempre esta expectativa de que alguma coisa muda à meia-noite. No fundo, sabemos que não é bem assim. Mas também sabemos que acreditar nisso ajuda.
Pensei se devia fazer alguma coisa antes da viragem. Dizer alguma coisa. Procurar alguém. A ideia apareceu, ficou um pouco, e depois deixou-se estar em silêncio. Nem sempre é preciso agir para que algo comece a mudar.
Quando os primeiros foguetes subirem, talvez não tragam respostas. Mas podem trazer outra coisa. Um começo pequeno, sem alarido. E, honestamente, talvez seja isso que me basta agora.
Fecho o ano assim. Sem certezas, sem grandes resoluções. Mas com uma vontade discreta de não ficar no mesmo sítio. E isso, para já, chega.
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