A Semana da Fé que Separa

Setembro de 1975

Semana 3

Na segunda-feira acordei já a meio de um pensamento, como se a noite tivesse continuado o debate que deixei a meio. O não da Dila voltou-me à cabeça com a mesma força com que entrou, mas desta vez trouxe companhia: todas as memórias que insistem em contradizê-lo.

Porque, se penso bem, se volto atrás, se revisito cada palavra trocada, cada olhar que não disfarçámos, como é que aquele não encaixa naquilo que vivemos? Lembrei-me das conversas que pareciam pequenas mas nunca o eram. Da maneira como ela dizia António, como quem pousa uma mão invisível no ombro. Da forma como os olhos dela brilhavam quando me falava de coisas simples, como se eu fosse o primeiro a ouvi-las. E sobretudo daquele bilhete que guardo como quem guarda uma pequena fogueira para se aquecer nos dias frios, onde ela enumerou, quase envergonhada, tudo o que sentia por mim. Aquilo tinha verdade, tinha pulso, tinha coração.

Então onde é que isso fica agora? As palavras que se escrevem deixam de valer só porque depois se tem medo? Ou é o contrário, valem tanto que ela sente que não lhes pode responder?

No fim do dia, já o céu estava cansado de luz, e eu também. O caminho parecia bifurcar-se. Num lado a memória do que fomos. No outro a dúvida do que somos.

Na terça-feira ia pela rua sem destino preciso quando o mundo fez aquele pequeno estalido que só ocorre quando o inesperado decide aparecer. A Dila. Ali. Tão perto que quase não acreditei.

— Olá, António.

— Olá, Dila.

A voz saiu-me menor do que eu queria. Ela puxou um sorriso curto, daqueles que dizem mais do que deviam e menos do que queríamos. Falamos de pouco, sempre a contornar a borda do poço, sempre com medo de olhar lá para dentro. Ela mexeu nas mãos, inquieta, como fazia sempre quando evitava um assunto.

— Ainda bem que te encontrei — arrisquei.

— Sim, foi uma sorte — disse ela. Mas não soou a sorte. Soou a desvio.

Pensei em perguntar-lhe sobre aquele não, sobre o bilhete, sobre tudo. Tinha tantas perguntas que parecia que o corpo não chegava para as carregar. Abri a boca e nesse exacto momento surgiu uma conhecida dela vinda não sei de onde.

— Oh, Dila! Estás aqui!

O instante fechou-se. A Dila hesitou, como se tivesse algo para me dizer, mas o momento morreu ali.

— Tenho de ir, desculpa — murmurou, quase num sussurro.

— Claro.

Ela afastou-se depressa, sem promessas, sem um até logo, sem nada que me deixasse sequer a ilusão de um futuro encontro. Fiquei parado a olhar para o vazio onde ela já não estava, com a sensação clara de que a ferida que eu esforçadamente tentava fechar acabara de ser reaberta com brutal delicadeza.

Na quarta-feira acordei com a sensação estranha de caminhar dentro de mim, como se o próprio corpo fosse um lugar desconhecido. Sinto-me abandonado. Sinto-me só. Talvez porque tenho medo de que ela me tenha esquecido.

A Dila, para qualquer pessoa, é só um nome. Um nome curto, leve, que passa despercebido na conversa do dia. Mas para mim é um fio inteiro de significado, é a respiração mais funda, é o lugar onde o peito se ilumina e se confunde ao mesmo tempo. E amo-a. Mesmo que essa palavra me assuste pela ousadia.

O dia passou amarrado a esta inquietação. Recordei o encontro de ontem, aquela brevidade quase cruel, aquele sorriso cortado a meio, aquele adeus apressado que mais pareceu fuga do que despedida. E a pergunta voltou, insistente: será que ela quer afastar-se de mim?

À noite, já o mundo estava quieto e escuro, e eu continuei a pensar nela. Senti aquela tristeza funda que não pede lágrimas, apenas silêncio. Amar, quando não se sabe se se é correspondido, é ficar suspenso entre o céu e o chão, sem saber onde pousar os pés.

Na quinta-feira vi a Dila brevemente enquanto caminhava com passos apressados. Aproximou-se, o sorriso tímido a iluminar o meu mundo por momentos efémeros.

— António, vou sair com os meus pais. Não podemos falar muito hoje.

— Dila, posso perguntar-te algo? É sobre a tua religião. Queria entender melhor.

— Sou Testemunha de Jeová — respondeu calmamente, sem hesitar. — É algo muito importante para a minha família. Sei que não compreendes bem, mas é parte de mim.

As palavras ficaram na minha mente como marcas invisíveis no ar. Ao despedir-me, a sua mão roçou a minha, propositadamente ou não, e por um segundo todo o mundo desapareceu. A noite caiu e eu regressei a casa com a cabeça cheia de pensamentos. Amo-a, e nada, nem mesmo uma religião, me fará esquecer esse sentimento.

Na sexta-feira a manhã surgiu como uma cortina cinzenta sobre o meu espírito. Tentei concentrar-me na rotina, mas até as tarefas mais simples se diluíam no peso do meu próprio silêncio. Caminhei pelas ruas de S. Pedro como se estivesse dentro de um filme em câmara lenta, onde os sons se tornavam eco e cada rosto desconhecido me recordava o dela. Não quero pensar, não quero sentir. Tentei ocupar a mente com números, exercícios, o barulho das crianças a jogar à bola, mas nada resultou.

Sentei-me à sombra de uma árvore e fechei os olhos. Respirei fundo, como quem tenta enganar o próprio coração, e percebi que não há truque que funcione. O dia arrastou-se lento e pesado, marcado pelo nada.

No sábado encontrei finalmente a Dila. Estávamos sentados no muro do adro da igreja, rodeados pelo silêncio que nos permitia falar com liberdade.

— António, tens um ar muito pensativo. Algo te preocupa?

— Quero entender melhor a tua fé. Como é que a tua religião vê a relação entre jovens que não são da mesma religião?

Ela assentiu, compreendendo.

— Para nós o amor é algo sério e profundo. Namorar não é apenas estar junto, é construir algo que Deus possa abençoar. Por isso não é apenas o coração que decide, mas também a fé que seguimos.

— Então imagina que dois jovens têm uma relação e apenas um deles é Testemunha de Jeová. Como é que isso se encaixa?

— Não têm de mudar a sua fé para se acompanharem. Mas têm de compreender os limites que seguimos e respeitá-los. O que é mais importante é o respeito mútuo. Se esse jovem aceitar as nossas regras e respeitar os princípios, podem ter algo sólido.

— Isso significa que há coisas que não podem fazer um com o outro?

— Sim, algumas coisas que o mundo considera normais nós evitamos. Mas não significa que não possamos partilhar momentos, compreender-nos, apoiar-nos. Amar também é esperar, é aprender a controlar os impulsos. É isso que nos fortalece e nos protege.

O dia passou rápido mas deixou-me mais consciente. Aprendi que amar alguém não é apenas sentir, mas também compreender e respeitar sem me perder a mim próprio.

No domingo o peso do silêncio instalou-se desde a conversa da véspera. Passei a manhã sozinho, a vaguear entre as ruas conhecidas, cada passo carregado de interrogações. Que estigmas terão colocado sobre mim? Que ideias moldaram na mente dela sobre quem eu sou e quem posso ser?

Pensei nos pais dela, no modo como interpretam os princípios que a Dila segue. Talvez estejam a tentar protegê-la. Ou talvez a limitar o mundo que ela pode explorar. A religião dela não me afasta, mas os medos plantados pelos outros talvez o façam.

O entardecer trouxe apenas sombras longas e frias. Sentei-me no muro de minha casa a olhar para o céu que escurecia cedo, e o medo do futuro enredou-me o coração. Tudo o que mais quero é segurá-la perto de mim, mas a incerteza espreita, lembrando-me de que o amor, por vezes, é tão delicado quanto um cristal prestes a cair.


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