A Semana das Perguntas Sem Resposta

Setembro de 1975

Semana 2

Na segunda-feira levantei-me quase ao meio-dia com aquela pressa que só existe quando o coração acredita que vai ser correspondido. Mas em vez da Dila veio a irmã, um vulto que separava o que mais desejava. Voltei para casa como quem regressa derrotado de uma batalha que nem chegou a acontecer. De tarde refugiei-me num livro, como quem se esconde atrás das páginas para não encarar o peso do que não viveu. À noite o Benjamim passou em minha casa por breves minutos, como se também ele pressentisse que eu precisava de não estar totalmente só.

Na terça-feira fui ao local onde me deveria ter encontrado com a Dila, mas a realidade devolveu-me apenas a irmã outra vez. Sorri, tentei enganar-me, mas a dor apertava por dentro, silenciosa e firme. De tarde pedalei sem rumo pelas ruas gastas, sentindo o vento a tentar roubar-me a angústia. Quando a noite caiu o silêncio tomou conta da casa, pesado. A solidão não chega devagar. Instala-se de rompante, ocupando cada canto do corpo. Ainda assim, teimoso, repeti a mim mesmo que amanhã poderia ser diferente.

Na quarta-feira o dia nasceu claro e luminoso. Quando finalmente a encontrei senti uma alegria imediata, seguida de hesitação. O sorriso dela era breve, quase cauteloso, e percebi num instante que algo havia mudado. O pedido recusado flutuava entre nós, invisível mas pesado. Nenhum de nós ousava tocar nele, como se a menção pudesse quebrar o delicado fio que ainda nos ligava.

Falamos de coisas pequenas, banais. A sua voz era doce mas contida, cada palavra cuidadosamente escolhida. Houve momentos em que quis tomar-lhe a mão, dizer tudo o que o peito gritava. Mas as palavras ficaram presas. A tarde passou num arrastar de minutos densos e silenciosos.

Quando chegou o momento de nos despedirmos o coração apertou-se como nunca.

— Até à próxima, Dila.

— Até qualquer dia.

Aquelas duas palavras caíram-me em cima do peito. Voltei para casa com o peso de quem começa a perceber que o amor exige coragem, e talvez a minha ainda não fosse suficiente.

Na quinta-feira acordei no éter, atordoado como quem não dormiu. A bicicleta levou-me por ruas que já sei de cor mas que hoje pareciam outras, mais vazias, mais lentas. Desde ontem cada pedaço de luz me lembrava a recusa dela, não uma recusa brusca, mas aquele jeito tão dela de pôr cuidado onde eu ponho urgência.

No fim da tarde fui para a Academia, sozinho, a fingir que os treinos me devolviam foco. Mas até ali, no ruído seco dos golpes, ela surgia como interrogação.

Os pais forçaram-na? Terá medo de mim? Ou medo de si? Ou será que sente tudo demasiado, e essa não é só uma forma de se proteger do que ainda não sabe nomear?

Voltava sempre à mesma imagem: ela a olhar para o chão antes de responder. Não foi indecisão. Foi cuidado. Como se pesasse cada palavra com receio de ferir. E a sinceridade dói mais do que qualquer mentira bonita.

Na sexta-feira amanheci meio suspenso, naquele estado brumoso em que o coração anda descalço e tudo magoa um pouco. Tinha prometido a mim mesmo que hoje a procuraria, mas o corpo demorou a alinhar-se com a vontade.

Depois do almoço saí. Andei pelas ruas como quem procura sinais, uma sombra parecida, um eco distante de passos, uma cor de vestido que pudesse ser dela. Ao fim da tarde o coração acelerou sem motivo, aquele pressentimento tolo de que ela podia aparecer ao virar da esquina. A esquina ficou vazia.

Quando me devolvi à rotina da Academia, cada golpe parecia perder força no meio do ar. Treinar sozinho tem esta coisa: ou concentra, ou expõe. Hoje expôs. Ao regressar a casa dei por mim a pensar que, mesmo sem a ver, ela habitou o dia inteiro. É estranho como alguém pode faltar e, ainda assim, estar em tudo.

No sábado acordei com aquela teimosia do corpo que insiste em avançar mesmo quando a alma ainda dorme. Fiz as coisas de sempre mas sem vontade. O tempo muda de peso quando esperamos alguém, cada minuto fica mais espesso, mais lento, e eu passava por eles como quem atravessa água.

Depois do almoço saí. Andei por caminhos conhecidos, aqueles que se tornavam quase rituais. Apenas o silêncio me acompanhava, mas era um silêncio cheio de significado, como se dissesse: hoje não, António, hoje ainda não.

Quando a noite chegou, levei comigo uma serenidade estranha. Não a vi, já esperava que não. Mas percebi ao regressar a casa que o meu sentimento por ela não precisa de resposta para existir. Claro que desejo. Claro que dói. Mas também cresce, e crescer é sempre um acto de futuro.

No domingo o dia nasceu torto, como se viesse já com um nó atado ao peito. Acordei cedo demais com a sensação de que a cabeça tinha passado a noite a debater-se sozinha.

Ela diz que é muito nova. Treze anos. Sim, é verdade. Mas depois penso: se é tão nova, como é que consegue ser tão mais madura do que eu? É ela quem decide com calma. É ela quem pesa as palavras. É ela quem cuida dos irmãos como se fosse mãe. E eu tenho quinze e continuo a tropeçar em responsabilidades simples.

Então não percebo. Ser nova é impedimento? Ou desculpa? E se for desculpa, do quê? De quem? Para quem?

Depois há o assunto da religião. Ela disse qualquer coisa sobre isso também. O que é que a religião tem a ver com o facto de namorarmos? Será pecado na religião dela gostar de alguém? Será que os pais lhe enchem a cabeça com regras que ela sente obrigação de respeitar? Ou será ela própria quem acredita nisso, e eu é que sou ignorante demais para entender?

Passei o dia num corrupio de emoções. Ora zangado comigo por ser tão impaciente, ora triste por não a compreender, ora quase a rir da minha própria incapacidade de perceber o óbvio.

À medida que o sol descia senti-me mais cansado do que se tivesse corrido o dia inteiro. Cansado de pensar. Cansado de não perceber. Cansado deste nó que não desata.

No fim da tarde dei por mim a desejar que o tempo voltasse atrás. Só um bocadinho. Só até antes daquele não. Mas o tempo não volta. E eu fico aqui com esta confusão que me atravessou o dia inteiro e este desejo teimoso de a ver, de a ouvir, de perceber finalmente o que separa o nosso querer do possível.


Página (27)


Comentários