A Semana do Bilhete de Despedida

Setembro de 1975

Semana 4

Na segunda-feira o dia amanheceu cinzento e hesitante. Caminhei pela manhã com o peso de quem leva dentro do peito um enigma maior do que si próprio. Os ecos da conversa com a Dila ressoavam: talvez seja nova demais para se comprometer.

Perguntei-me pela primeira vez de forma séria se aquilo que sinto é mesmo amor, ou se é só uma paixão juvenil, como os adultos costumam dizer com aquele ar superior que tanto irrita. Talvez eles é que estivessem enganados. Talvez o amor não tenha idade definida, como certas árvores que florescem antes do tempo apenas porque o mundo ficou demasiado bonito de repente.

E depois lembrava-me do olhar dela, aquele olhar meio doce, meio assustado, de quem parece sempre a fugir de qualquer coisa invisível. Ela acredita que o amor dela precisa de protecção? Ou de permissão? E aquele muro silencioso que nunca se vê mas se sente sempre entre nós, será mais alto do que ambos juntos?

Sentei-me no muro do costume, os braços pendidos, o pensamento a rodopiar como um pião cansado. Pela primeira vez tive medo de que aquilo que sentia fosse grande demais para a minha idade, e pequeno demais para vencer tudo o resto. O sol rompeu por entre as nuvens num gesto breve, quase um sorriso tímido. Respirei fundo. Não tinha respostas, mas tinha caminho.

Na terça-feira a manhã nasceu com aquele silêncio que parece suspender o ar. É cansativo estar sempre à espera, e no entanto cá estava, como um discípulo da incerteza, a medir passos no mesmo sítio onde costumávamos cruzar destinos. Dei por mim a tentar adivinhar razões que talvez nem existissem. Será que a Dila perdeu aquele brilho que ligava os nossos dias? Ou estará apenas encurralada no labirinto onde a família decide por ela?

Se ela não vem, o que significa? Se ela vem, o que ainda espera de mim? Há perguntas que se colam à pele como chuva fria. E o coração, esse teimoso, insiste em não desistir. Ainda acredita. Ainda tenta. Ainda volta ao mesmo lugar. E eu deixo-o ir, porque às vezes a esperança é a última teimosia que nos mantém de pé.

Na quarta-feira saí de casa com aquela esperança teimosa que ainda me sobrava, a de que a Dila aparecesse no sítio combinado. Fui com o Manel, quase a correr por dentro. Mas não estava. Veio a irmã no lugar dela. O Manel tentou disfarçar a situação, mas a verdade é que só quis voltar para casa.

À tarde ele foi ver o bebé a casa da Dila. Pela primeira vez senti ciúmes de um amigo. Não daqueles maus, mas aquela pontada seca de quem pensa: porque é que ele ainda entra naquele mundo e eu já só o vejo de fora?

O resto do dia passou-me pelas mãos sem deixar marca. Dou por mim a perceber que até o diário anda a estranhar-me. Escrevo menos, escrevo tarde, escrevo só quando alguma coisa me lembra que existo. E quase sempre essa coisa tem o nome dela.

Na quinta-feira voltei ao sítio onde devíamos ter estado juntos. Esperei uma hora inteira a olhar para o vazio, como quem lê uma carta que nunca veio. Voltei para casa com uma decisão mal costurada no peito, tinha de saber. Pedi ao Manel que fosse ele, que desse a cara por mim. Quando regressou vinha com uma resposta tão simples que me cortou como se tivesse arestas, ela não quis aparecer.

Nada mais. Nenhuma desculpa, nenhuma hesitação. Apenas a frieza transparente do não.

Para esquecer, ou fingir que esquecia, fui com o Benjamim para a Academia. Lá pelo menos os gestos são claros, directos, limpos. O meu pai apareceu para ver o treino. Foi estranho vê-lo ali, como se por um momento o meu mundo e o dele conseguissem finalmente encaixar. No fim da aula recebi um convite inesperado para a inauguração de uma nova filial da Academia. É curioso como, mesmo com o coração feito em lascas, há sempre um pequeno lume que insiste em acender-se.

Na sexta-feira acordei com o céu cinzento, como se até a chuva pressentisse o que se passava dentro de mim. Entre ontem e hoje não consegui afastar da mente o que a Dila me fizera. A raiva misturava-se com a tristeza e a decisão surgiu clara, quase inevitável: não a veria mais. Escrevi-lhe um bilhete, curto, directo, definitivo.

O Manel veio a minha casa e ao partilhar-lhe a minha resolução notei no olhar dele uma desaprovação silenciosa. Magoou-me ver aquela discordância, como se o mundo inteiro se opusesse ao meu desvario.

A chuva caiu incessante. Fui com o Manel às vindimas em casa dele. A tarde alongou-se até à noite, as mãos ocupadas, o corpo cansado, mas a mente sempre presa à Dila. Cada cacho de uva parecia pesar tanto quanto o meu coração. Ao regressar, a casa, o jantar e a televisão foram apenas vultos de normalidade.

No sábado continuei a ajudar o Manel nas vindimas. Pisei uvas até que os dedos dos pés se tornaram roxos e a camisa encharcada de suor e sumo, mas mesmo o cansaço não conseguiu roubar-me a memória do seu olhar.

À noite viajámos para S. João da Madeira. O filme do estágio do mestre Tran Huu Ha, os katas, a defesa pessoal e a quebra das tábuas eram exercícios de disciplina, mas cada golpe lembrava-me que no meu coração tudo era caótico. As conversas do meu pai no café passavam quase despercebidas. Eu vivia em paralelo, num mundo onde só a Dila existia, mesmo sem estar presente.

No domingo peguei numa folha em branco, sentei-me à mesa e comecei a escrever para a Dila. Cada palavra parecia arrancada do meu próprio coração. Não queria implorar por amor, nem insistir em algo que pudesse ser recusado, mas não podia aceitar o vazio que o seu não deixara no meu mundo.

A carta começou por ser simples, contida, mas rapidamente se tornou uma confissão. Expliquei-lhe que o meu desejo mais profundo não era que se apaixonasse por mim, mas que não desaparecesse da minha vida. Se o destino quisesse que fôssemos apenas amigos, aceitava, desde que pudesse continuar a sentir a sua presença, ouvir a sua voz, partilhar aqueles pequenos momentos que dão sentido aos dias.

Reli a carta vezes sem conta, corrigindo e sublinhando o que parecia mais verdadeiro. No final da tarde entreguei-a ao Manel, confiando-lhe a missão de a fazer chegar à Dila. Senti um misto de alívio e ansiedade.

Ao regressar sentei-me junto à janela a olhar o céu que se tingia de cores suaves. Imaginei a Dila a ler a carta, a sorrir com compreensão, talvez emocionada. A noite caiu, mas a expectativa continuava acesa dentro de mim, como se cada estrela fosse um suspiro da minha alma à espera de um gesto dela que devolvesse sentido aos meus dias.


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