A Semana do Bilhete Rasgado

Outubro de 1975

Semana 5

Na segunda-feira o dia voltou ao seu ritmo habitual, como se a semana quisesse recordar-me que a rotina é uma espécie de corrente mansa que nos leva sem esforço. Fui para o liceu com o Benjamim e o caminho pareceu mais silencioso do que o costume. As aulas decorreram dentro da normalidade, explicações, apontamentos, olhares distraídos pela janela. A Dila não surgiu, mas hoje isso não teve o peso dos dias anteriores. Apenas um ligeiro movimento dentro de mim, rápido como um sopro, a lembrar que ela existe algures por aí, mas sem a força de me desviar do curso do dia. O fim da tarde trouxe-me de volta a casa, onde nada reclamava a minha atenção e tudo parecia calmo.

Na terça-feira a manhã começou com um sobressalto. Ao levantar-me reparei num pequeno papel rasgado no chão ao pé da secretária. No início nem liguei, pensei que fosse um rascunho qualquer. Mas quando o apanhei e senti a textura conhecida, veio-me o frio ao peito, era o bilhete da Dila. O único que ela me tinha dado.

Fiquei imóvel durante uns segundos, como se o tempo tivesse encolhido. Depois veio o horror, rápido e certeiro, e comecei a procurar freneticamente os outros pedaços. Vasculhei o chão, a gaveta, o lixo, tudo. Aos poucos fui encontrando fragmentos minúsculos, outros maiores, até conseguir juntar o suficiente para perceber que nada se tinha perdido, apenas se tinha partido. Acabei a colá-los com o maior cuidado, como se estivesse a recuperar um pedaço do passado que não tinha percebido que ainda guardava tão fundo.

O resto do dia arrastou-se num mau humor que nem eu conseguia justificar. Irritava-me com tudo e com nada. E foi só ao fim da tarde que a pergunta me bateu com força, se eu estava tão anestesiado em relação à Dila, tão convencido de que os sentimentos estavam em banho-maria, porque raio me zanguei tanto? Porque senti aquele aperto na garganta quando vi o papel no chão?

A verdade apareceu devagar, como uma maré teimosa, talvez nada estivesse adormecido. Talvez eu quisesse apenas acreditar que estava. O bilhete, rasgado em pedaços, mostrou-me mais do que queria ver. Mostrou-me que a distância que tentei construir era só fachada, e que por trás dela o coração continuava alerta, vulnerável, pronto a incendiar-se ao menor toque do passado.

O bilhete está colado. Mas eu ainda não.

Na quarta-feira o dia amanheceu com aquela chuva miúda que parece não querer parar, deixando tudo cinzento e sem graça. O Benjamim não apareceu para a viagem de trólei. A ausência dele deixou o lugar ao meu lado vazio, e esse vazio abriu espaço para as memórias que por vezes tento evitar.

Enquanto o trólei avançava devagar pelas ruas molhadas, dei por mim a recuar no tempo, a deslizar para aqueles dias em que fazia esta mesma viagem na companhia da Dila. Lembrei-me especialmente daquele dia em que estávamos a chegar à Corujeira. Passámos por uma oficina com uma placa publicitária onde se lia António dos, seguido do desenho de um amortecedor. A Dila, com aquela curiosidade rápida e ingénua que lhe era tão natural, ficou na dúvida sobre o que estava escrito. Para ela, o formato do amortecedor enganara-a, transformando o que devia ser mecânica em escrita. Ela leu António dos Caneta. Rimo-nos tanto. Aquela gargalhada dela ainda hoje ecoa num canto do meu pensamento, viva, inteira, como se tivesse acontecido ontem.

Foi assim, mergulhado nessas memórias, que atravessei a viagem inteira. A chuva por fora, a Dila por dentro, e eu no meio, preso entre o que foi e o que já não sei se volta a ser.

No liceu a tarde correu arrastada. A chuva batia nas janelas como dedos impacientes, e o cinzento entrava pelas salas adentro.

Na quinta-feira o tempo manteve-se do mesmo modo, cinzento, molhado e sem qualquer promessa de mudança. A viagem foi silenciosa. O Benjamim apareceu desta vez, mas vinha tão encolhido no casaco que mal trocámos meia dúzia de palavras. Não pensei muito na Dila hoje. Talvez porque a memória de ontem ainda estivesse demasiado viva e, de certa forma, demasiado pesada. É curioso como certos pensamentos se prolongam e outros se retraem sozinhos, como se tivessem vontade própria.

No liceu a tarde seguiu o registo habitual destes dias chuvosos, colegas ensonados, corredores húmidos, professores com discursos que se perdiam no ar frio da sala. À saída a chuva apertou de novo e o casaco já não chegava para evitar a sensação de frio. Voltei para casa com o passo apressado. Dou por mim a notar como o tempo tem influência nas emoções. A Dila hoje não entrou pela porta principal do pensamento, ficou apenas num canto, sossegada, sem fazer barulho. Talvez o coração precise destes intervalos para respirar.

Na sexta-feira, último dia de Outubro, o céu continuava cinzento espesso, chuva miudinha, um frio que se insinua pelas mangas do casaco. A viagem de trólei foi igual a tantas outras, rostos ensonados, vidros embaciados, um mundo lá fora desbotado pelo tempo. A Dila passou apenas como um sopro breve, um rasto luminoso que atravessa o pensamento mas não se instala. Talvez porque o coração esteja a aprender a repousar, talvez porque certas memórias sabem quando devem recolher-se.

No liceu a tarde correu sem surpresas. Passei o recreio encostado a uma das colunas do pátio coberto a ver a água escorrer pelos beirais. Havia uma espécie de paz naquela repetição, a chuva cai, o tempo passa, e nós vamos andando. Ao sentar-me a escrever percebi, há dias que não servem para grandes histórias, mas servem para afinar o espírito. Outubro despedia-se sem drama e sem festa, apenas num murmúrio, como quem fecha uma porta devagar para não incomodar ninguém.

No sábado, primeiro de Novembro, o dia nasceu baço como se o próprio céu tivesse passado a noite acordado. O Manel apareceu cedo com uma energia qualquer, nervosa e boa. Falamos de trivialidades, de música, de sonhos que ninguém leva muito a sério. O Benjamim juntou-se a nós mais tarde. Circulámos pelas ruas sem pressa, empurrados mais pela rotina do que pela vontade. Havia uma estranha familiaridade em tudo, como se cada esquina já soubesse como nos íamos sentir antes de lá chegarmos. Às vezes, quando o vento mudava de direcção, parecia trazer qualquer coisa que eu não sabia o quê. Uma espécie de silêncio dentro do próprio silêncio. Não era tristeza, nem era saudade. Era apenas presença. Daquelas que não pedem permissão.

No domingo o Manel apareceu ainda antes do sol decidir se valia a pena brilhar. Fomos até ao Largo da Farmácia, onde nada acontecia, como sempre. O Benjamim juntou-se a nós. Havia, porém, momentos em que a conversa parava, não porque faltassem temas, mas porque qualquer coisa na quietude do ar obrigava o pensamento a recuar. Era breve, quase imperceptível, como a sombra de um pássaro que passa depressa demais para ser vista, mas o suficiente para se sentir que passou.

Mais tarde decidimos ir ao monte. O frio estava a entrar na estação com aquela autoridade muda que o outono tem. O Manel falava de uma rapariga da escola, o Benjamim fazia troça, e eu ria-me, mas sem grande convicção, apenas o suficiente para que ninguém reparasse.

Voltámos para casa cedo. Ao fechar a porta do quarto senti aquele vazio suave que não dói, mas pesa. O tipo de vazio que não se explica, apenas se carrega.



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