A Semana do Cinturão Amarelo
Outubro de 1975
Semana 2
Na segunda-feira acordei com a sensação de vazio, como se o quarto tivesse perdido as cores. Sem pensar demasiado, vesti-me e saí. Não havia plano, apenas uma urgência quase física de percorrer cada lugar que tivesse testemunhado os nossos momentos juntos. O largo onde costumávamos encontrar-nos, a estrada que atravessávamos para ir ao monte, os degraus da igreja onde tantas vezes nos sentámos em silêncio. Cada recanto parecia chamar o meu nome.
Enquanto caminhava, a ansiedade misturava-se com memórias vívidas, os risos partilhados, as conversas interrompidas pelo tempo, os pequenos gestos que agora pareciam monumentos do passado. Ao fim da manhã senti que o percurso havia sido mais do que físico. Havia sido uma viagem pelas minhas próprias emoções, uma tentativa de reorganizar o caos interior.
Na terça-feira o passeio de bicicleta com o Manel e o Benjamim trouxe alguma sensação de liberdade, mas a companhia constante da saudade acompanhava-me mesmo entre amigos. À noite veio o susto inesperado, o diário tinha desaparecido. A minha irmã mais nova, a Celeste, tinha-o levado com curiosidade travessa. Percorri a casa com o coração acelerado, imaginando cada página perdida, cada palavra arrancada pelo acaso. Por sorte a confusão teve breve duração. O diário regressou ao seu legítimo dono, seguro e intacto, trazendo consigo um suspiro de alívio profundo.
Na quarta-feira passei a manhã a caminhar com os meus colegas. Apesar das conversas e risos, a mente não descansava. À tarde dei um passeio com o Benjamim. No regresso passei em frente à casa da Dila. Não a vi, mas a presença da mãe dela fez-me tremer levemente. Senti os olhos dela a atravessar a rua, talvez a observar. À noite voltei a passar por lá, movido por um impulso silencioso, uma esperança que teimava em não se apagar.
Na quinta-feira de manhã andei de bicicleta com o Benjamim. No regresso a casa passei pela porta da Dila, sentindo aquele misto habitual de ansiedade e expectativa. Pouco depois do meio-dia decidi procurá-la. Mal dei os primeiros passos dei de caras com ela.
A surpresa pairou no ar. Ela ergueu os olhos para mim, os lábios entreabertos como se quisesse dizer algo, mas hesitasse.
— Olá, Dila. Não esperava encontrar-te. Que boa surpresa.
Ela sorriu timidamente.
— Eu também não, António. Que coincidência.
— O que tens feito? Não te tenho visto em lado nenhum.
— Não desapareci, mas a minha mãe tem feito de tudo para me manter ocupada. Mal tenho tido tempo de sair.
Respirei fundo.
— Dila, queria dizer-te algo. É sobre a carta que a tua mãe encontrou.
— Sim? E o que dizias na carta?
— Era mais uma confissão. — desabafei. — Não queria que desaparecesses da minha vida. Se o destino quisesse que fôssemos apenas amigos, aceitava, desde que pudesse continuar a sentir a tua presença, ouvir a tua voz, partilhar aqueles pequenos momentos que dão sentido aos dias.
A Dila emudeceu, corando, sem conseguir articular palavra.
— Não queria causar problemas, nem preocupar-te. Só não queria que se perdesse o que sentimos, mesmo que sejamos apenas amigos.
Ela olhou para mim, os olhos a brilhar de emoção contida.
— António, entendi. E não estou zangada. Sei que foste sincero. A minha mãe nada disse do que lá estava escrito, mas esteve muito zangada comigo. Creio que ainda está.
— Lamento profundamente, Dila. Só te meto em trabalhos.
— Aceito a tua amizade, António — interrompeu-me de forma sôfrega. — Mas sabes as limitações que tenho.
— Ou que te foram impostas — disse, não conseguindo conter a frustração.
— De qualquer forma são limitações das quais não me é permitido fugir. No entanto, como já disse, podemos continuar a ser amigos.
A nossa conversa foi interrompida por um miúdo que a chamou para ir à mãe. Esperei, mas quando percebi que ela já não voltaria regressei a casa, levando comigo o calor discreto daqueles minutos preciosos.
À tarde voltei a pedalar com dois colegas. À noite fui com o Benjamim para a Academia, onde o treino me deu outro tipo de recompensa. No fim da aula fui graduado em 8º Kyu, conquistando o cinturão amarelo. Um pequeno triunfo que trouxe alívio e orgulho, equilibrando a inquietação do coração com a satisfação de um objectivo alcançado.
Na sexta-feira o dia correu como um rio lento. Arranjei a bicicleta, dei umas voltas com os amigos, fui ao café com o meu pai. Mas tudo isso não passou de cenário, sombras em movimento enquanto eu permanecia imóvel no mesmo ponto interior.
O encontro de quinta-feira não me saía da cabeça. A frase que mais me perseguiu foi quando ela murmurou aceito a tua amizade. Palavra estranha, que fica a meio caminho entre o possível e o proibido. E depois aquele instante em que corou ao ouvir-me falar da carta. Aquele vermelho discreto que lhe subiu ao rosto valeu mais do que se me tivesse dito cem vezes que tudo ia ficar bem.
A verdade é que amizade, quando já se gosta demais, é como ficar na soleira da porta a ver a casa iluminada por dentro e saber que não se pode entrar.
No sábado acordei mais cedo do que queria. A mente decidiu ser despertador. Levantei-me sem pressa, com aquela lentidão que não vem do sono mas do que se carrega por dentro. A manhã passou comigo a fingir ocupações. Tentei varrer o quintal, mas a mente varria apenas os detalhes do encontro de quinta-feira. Voltei a ouvir a voz dela, aquele aceito a tua amizade que me deixou suspenso num meio-termo que não sei se é consolo ou castigo.
À tarde dei algumas voltas por S. Pedro. O corpo insiste sempre em andar quando a cabeça não encontra lugar para pousar. Cada rua parecia carregar a possibilidade absurda mas possível de a ver ao longe. À noite tentei distrair-me com a televisão, mas as imagens passavam como vultos. Por dentro revivia ainda o instante em que ela ficou sem palavras, naquele silêncio cheio que mais dizia do que qualquer frase inteira.
No domingo o mundo amanheceu sem pressas. E pela primeira vez em vários dias senti que também eu respirava sem peso. Era como se tudo tivesse assentado, não desaparecido, apenas repousado. A manhã passou devagar com o sol a espreitar por entre as nuvens. Fui fazendo pequenas coisas, arrumar uma gaveta, dar dois passos no quintal, ajudar aqui e ali. O corpo movia-se, a cabeça acompanhava, e o coração estava manso.
Não pensei propriamente na Dila, pelo menos não da forma intensa que tem sido habitual. Ela estava lá, claro, porque está sempre, mas a uma distância confortável, como alguém sentado numa mesa ao fundo de um café. Presente, mas sem chamar por mim.
À tarde dei uma pequena volta sem objectivo, apenas para sentir o ar. Vi gente conhecida, acenei, troquei duas palavras. Senti-me leve, não feliz, não triste, apenas leve. À noite sentei-me a ver televisão com uma calma que já não lembrava.
Hoje não houve sobressaltos de coração, nem perguntas sem resposta. A vida correu pela superfície, tranquila, suave, como um lago que se limita a estar ali. E às vezes isso basta.
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