A Semana do Não
Na segunda-feira Setembro chegou sem grande alarido, apenas um ar diferente, como quando se muda uma cortina de sítio. Passei a manhã entregue a pequenas coisas, a arrumar um livro fora de lugar, a ouvir o vento a bater nas árvores de fruto do quintal. Em conversa com o Benjamim, no meio de frases soltas sobre bicicletas e horários, houve um breve instante em que senti a ausência da Dila de forma diferente. Não apertou o coração. Foi como uma nota que se ouve por engano e fica no ar. De tarde demos um passeio. A certa altura, ao passar num caminho que conheço demasiado bem, imaginei-a ali por um segundo ou dois, e o pensamento foi-se dissipando como um perfume de alguém que passa. Sem dramas. Apenas a memória discreta de uma batida do coração que se aplaca.
Na terça-feira saí sem destino certo e foram os passos que me deram a surpresa. A Dila vinha pela estrada acima, distraída com qualquer coisa que não cheguei a perceber. Quando me viu fez aquele sorriso pequeno, quase envergonhado.
— Ah, és tu.
— Sou eu, sim. Está tudo bem contigo?
— Mais ou menos. Ontem à noite ouvimos barulho do lado de fora de minha casa. A minha mãe disse logo que devia haver alguém às uvas.
— Bom, se fosse eu, tinhas visto um vulto elegante, discreto, um verdadeiro artista das uvas. Mas infelizmente estava a dormir. Sou inocente.
Ela riu-se, um riso rápido e leve que me acertou no centro do peito.
— Eu pensei logo que não devia ser nada de especial. Mas fiquei com aquela curiosidade.
— E se algum dia eu decidir ir às uvas, prometo avisar antes com pompa e circunstância. Não quero causar alarme na tua família.
— Tu és tolo.
— Um pouco. Mas só quando tu estás perto.
O rubor subiu-lhe às faces, aquele rubor macio que nunca mente, e foi essa cor, quase escondida, que fechou o momento. Despedimo-nos devagar, como quem tem receio de estragar o encanto que ainda flutuava no ar.
A tarde levou-me para a cama, onde dormi como se alguém tivesse desligado o mundo. À noite o futebol no café Santiago prendeu-me até à uma e meia. Mas por muito que o dia tivesse sido longo havia uma coisa que não me abandonava: a imagem dela a sorrir na manhã fresca, aquela cor leve nas faces quando lhe disse a verdade ao jeito de brincadeira.
Na quarta-feira o dia passou-se em casa, envolto numa quietude morna. À tarde a bicicleta levou-me para fora como um pedido de liberdade. Pedalei sem destino, ouvindo apenas o ritmo das rodas contra a gravilha. À noite o Benjamim apareceu e fomos ao cinema com o meu pai, mas o que dava não despertou interesse e voltámos cedo. Por baixo da aparente calmaria sentia um peso surdo no peito. A pergunta que deixara à Dila pairava como uma nuvem escura. O que responderia? Cada dia que passava parecia arrastar a dúvida mais fundo.
Na quinta-feira a manhã era clara mas sem entusiasmo. A carta pairava em mim como um pássaro inquieto. Hoje ela responderia. Hoje eu saberia.
Quando a vi ao longe, junto ao muro que sempre nos servia de porto, senti o corpo inteiro retesar-se. Ela também me viu. Por um instante fugidio pareceu sorrir, não um sorriso aberto, mas daqueles que surgem quando não se sabe bem como pousar o olhar.
Aproximei-me. O coração batia tão alto que temi que ela o ouvisse.
— Olá, António.
— Olá, Dila.
Houve um silêncio breve. Aquele silêncio cheio. Cheio demais. Ela mexeu nos dedos, depois alisou a saia, depois suspirou.
— Li e reli vezes sem conta a tua carta — murmurou.
O mundo encolheu até caber naquele único fio de voz.
— E então?
Ela ergueu os olhos. Havia ali ternura. Havia pena. Havia uma espécie de guerra antiga, dessas que nunca se vencem.
— António. Eu gostei muito do que escreveste. A sério que gostei. Mas eu não posso.
Foi como se alguém tivesse fechado uma janela por dentro de mim.
— Não podes? Mas porquê?
Ela abanou a cabeça devagar, num gesto que era mais triste do que qualquer lágrima.
— Eu sou muito nova. Demasiado nova para essas coisas. E depois a minha religião. Tu sabes. Nós, Testemunhas de Jeová, não podemos ter relações com pessoas de fora do nosso credo. Não é permitido. E os meus pais.
O resto ficou suspenso no ar, uma frase que não precisava ser dita porque já morava no meio de nós. Senti um peso a cair-me nos ombros que me obrigou a baixar um pouco a cabeça.
— Eu não queria fazer-te mal. Nem te complicar a vida. Só queria que soubesses o que sinto. Mesmo que fosse só isso.
Ela aproximou-se um pouco, não muito, mas o suficiente para eu sentir o calor da sua respiração.
— Eu sei, António. E isso é bonito. A sério que é. Mas eu não posso corresponder. Não posso. Mesmo que quisesse.
Aquilo doeu mais do que tudo. Mesmo que quisesse. O quase-amor é uma faca.
Forcei um sorriso, daqueles improváveis e meio tortos que aparecem quando se tenta não desabar.
— Obrigado por me dizeres a verdade. Dói, mas prefiro assim.
Ela assentiu, aliviada e triste ao mesmo tempo.
— Tu és uma boa pessoa, António. És mesmo. Só não pode ser.
O vento levantou-se naquele instante, como se o céu tivesse finalmente decidido rasgar-se. Despediu-se com um aceno pequeno e doce, entregando-me um bilhete, e foi isso que me destruiu. A delicadeza dela. A forma como parecia querer proteger-me justamente enquanto me dizia que não podia ficar.
Fiquei a vê-la afastar-se, cada passo seu mais lento para mim do que para ela. E quando a perdi de vista a tempestade começou: grossa, ruidosa, como se o céu tivesse esperado a resposta dela para ter licença de desabar.
Caminhei para casa encharcado por dentro e por fora. A dor vinha em ondas, uma quente, outra fria. Nenhuma deixava ar.
Na sexta-feira fui até casa do Manel sem grande convicção. Mal cheguei percebi que não ia conseguir ficar. Regressei a casa quase no mesmo passo em que saí. Passei o resto do dia estendido no chão do quarto a ouvir música como quem tenta colar os pedaços que se vão soltando por dentro. As canções não ajudaram, mas também não atrapalharam. Ao fim da tarde o Manel e o Benjamim apareceram trazendo com eles aquele jeito meio desajeitado de tentar animar sem perguntar. Ficaram até tarde a falar do que se lembravam e do que não importava, como se as palavras servissem de rede para eu não cair demasiado fundo.
Quando finalmente fiquei sozinho a casa pareceu maior e eu menor. A tristeza não é um bicho que se combate à força. É um visitante teimoso que se senta connosco até decidir ir embora.
No sábado o Manel apareceu à porta ainda com o cabelo desalinhado e ficámos ali uns minutos a conversar como dois velhos marinheiros que não têm porto certo. A tarde passou-se com música e languidez. O meu pai convidou-me para ir lanchar ao café. Fomos os dois numa dessas caminhadas silenciosas em que o coração anda mais cheio do que a boca sabe dizer. À noite fomos ao cinema. O filme passava no ecrã como se fosse de outra vida.
Passei o dia inteiro com o mesmo desejo a fazer-me nó na garganta: cruzar-me com a Dila, por acaso ou por milagre. Nem que fosse um relance. Mas não aconteceu. E ainda assim não senti que tivesse perdido tudo. Há vínculos que o tempo não sabe desfazer. Há ausências que, em vez de fechar portas, abrem janelas.
No domingo passei a tarde com o Benjamim em minha casa. Ele ora dedilhava o violão, ora deixava a televisão encher o ar, ora puxava as cartas para cima da mesa. Eu acompanhava tudo, mas sem nunca estar totalmente ali. À noite fomos todos ao cinema, o Benjamim, o meu pai, o meu cunhado, a minha irmã e eu. E mesmo ali, no meio da sala escura, o verdadeiro filme passava cá dentro: o que hei-de dizer amanhã à Dila?
Sinto-me dividido. Quero falar com ela, quero arrumar o que ficou espalhado, quero dizer-lhe que ainda acredito. Mas ao mesmo tempo tenho medo. Medo de que as palavras me falhem, medo de que ela já não queira ouvir.
O dia termina assim: com o coração inquieto, mas firme. Como quem se prepara para atravessar uma corda esticada entre dois telhados, sabendo que treme, mas sabendo também que só quem tenta sabe até onde aguenta.
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