A Semana do Olhar Frio no Trólei
Novembro de 1975
Semana 1
Na segunda-feira a manhã amanheceu chuvosa e fiquei em casa até às aulas da tarde. De tarde fui para o liceu com o Benjamim pelo caminho de sempre. A irmã da Dila passou e acenou-me. Respondi sem esforço, sem intenção. Um gesto leve, tão rápido que quase não existia, e no entanto ficou ali a pairar dentro de mim como uma brisa que insiste em voltar atrás.
As aulas seguiram sem história. No regresso caminhei devagar com o casaco a absorver o frio e o cheiro da água a subir do chão. A chuva caía-me no rosto em pequenos choques. Não eram memórias claras nem definidas, eram ecos, reflexos distantes de um tempo recente que preferia não revisitar. Mas a chuva tem dessas manhãs, devolve-nos imagens desfocadas que, mesmo sem nitidez, sabemos reconhecer.
Na terça-feira saí de casa encolhido no casaco, com a sensação de que cada passo ecoava mais do que devia. No trólei, o chiar metálico fez-me estremecer, não pelo som, mas pelo que trouxe à memória. As aulas correram como correm os dias que não querem ficar para a história: alinhadas, previsíveis, com professores que falavam mecanicamente. Eu participava nos risos, mas era como se estivesse sempre um passo atrás, a meio caminho entre o que vivia e o que tentava esquecer.
À tarde, ao sair do liceu, o céu começara a carregar de novo. Aquele cheiro de terra cansada prestes a receber mais chuva bateu-me de frente. E lá veio outra vez aquela sensação discreta, quase ridícula, de que o mundo às vezes nos fala por metáforas. Cheguei a casa antes de a chuva desabar. Mas lá por dentro a trovoada já tinha começado há muito tempo, suave, discreta, mas sempre presente.
Na quarta-feira acordei com uma luz pálida a entrar pela janela, daquelas que não aquecem nada. Durante uma aula mais monótona deixei o olhar perder-se pela janela. Havia um pedaço de céu onde a nuvem parecia rasgada por uma linha de luz. Aquela nesga pequena fez-me pensar que às vezes basta um detalhe para o coração dar um soluço que ninguém vê. Não era memória, não era saudade. Era apenas um toque, um impulso sem nome.
À tarde o caminho para casa fez-se quase em silêncio. Passava por sítios tão conhecidos que já não reparava neles, mas naquele dia reparei. A esquina com o muro baixo, a loja com o letreiro antigo, a árvore onde a copa se inclinava sempre para o mesmo lado. Cada coisa parecia pertencer a uma versão mais antiga de mim.
Na quinta-feira o céu amanheceu cinzento, com nuvens baixas a arrastar-se preguiçosamente. O Manel chegou mais tarde, a rir de uma história que eu apenas meio ouvia. O Benjamim apareceu pouco depois com um saco de pão da padaria do avô. Conversei, ri, troquei palavras com os meus amigos, mas algo no ar parecia hesitar. No regresso a casa o frio apertou ao fim da tarde, e a luz morna da rua mal iluminava os passeios. Fiquei alguns minutos parado a ver a neblina subir entre os prédios, observando um reflexo que se quebrava na água acumulada no chão.
Na sexta-feira levantei-me às seis e meia. Quando cheguei ao liceu postei-me numa das entradas com uns colegas e, pela primeira vez desde há umas semanas, vi a Dila. Estava muito bonita. Ao ver-me sorriu com o mesmo sorriso agradável de sempre. O coração acelerou-se, uma mistura de nervos e calor, e mesmo quando a deixei de ver na curva da rua, aquela sensação morna permaneceu.
Fui para a aula de ginástica tentando concentrar-me nos exercícios, mas a imagem do seu sorriso continuava a surgir em cada canto da sala. De tarde, enquanto esperava um trólei em S. Pedro, a irmã da Dila passou por mim. Mais tarde dentro do liceu voltei a cruzar-me com a Dila, e o contacto visual, ainda que breve, trouxe de volta um calor morno e familiar, a suavidade das emoções que haviam estado adormecidas. À noite havia uma presença que me atravessava em cada gesto e em cada pausa, morna como um lume que não se apaga.
No sábado levantei-me às sete horas. Com o Benjamim dirigimo-nos para a paragem do trólei na Adega Azul. Perdemos propositadamente dois tróleis na esperança de apanhar o mesmo que a Dila, mas como não a vimos seguimos no terceiro, fingindo naturalidade.
Duas paragens depois, no largo da Covilhã, ela entrou. A Dila. Sentou-se um lugar à minha frente, e nesse gesto tão simples houve qualquer coisa que me percorreu o corpo como um estalido. Levantei-me com a desculpa de lhe querer falar, uma desculpa tão transparente que até eu a via. Mas ao sentar-me não encontrei o sorriso do dia anterior. Havia um olhar frio. Uma postura rígida. Uma distância que não esperava.
Fiquei sem palavras durante toda a viagem, como se me tivessem desligado o interruptor. Sentei-me a seu lado, quase sem pensar, a tentar perceber como é que em vinte e quatro horas tudo podia mudar. A sensação morna do reencontro de sexta-feira transformara-se num gelo fino, como se alguém tivesse apagado a chama com um sopro descuidado.
Durante o dia deixei-me levar pelos amigos. O Benjamim falava, contava histórias, tentava arrancar-me risos como quem puxa um carrinho preso nos carris. Eu sorria, para não mostrar demasiado as sombras que me invadiam interiormente. Mas cada vez que o pensamento se soltava, lá voltava a imagem da Dila no trólei, o olhar firme, fechado, como se tivesse erguido uma parede.
À noite, sentado com o diário aberto, surgiram as perguntas que não deixam dormir. Porque é que a Dila deixara de entrar na paragem onde sempre a esperava? Porque é que entrou duas paragens adiante, se nunca o fizera antes? Seria para me evitar? O que é que eu fizera de tão mal? Estaria presa à rigidez dos pais? Se fosse isso, porque não me disse simplesmente para desaparecer? Porquê este silêncio? Porquê esta frieza? Porquê agora?
Fiquei a olhar para a última frase escrita com um nó apertado na garganta, sentindo que às vezes o mundo não responde, apenas se afasta.
No domingo o dia nasceu como quem herda uma dívida. O que ontem ficou por resolver colou-se aos meus pensamentos fazendo o dia começar torto antes mesmo de dar o primeiro passo. Não era uma tristeza declarada, nem uma revolta evidente. Era pior, uma inquietação muda, dessas que se instalam devagar e só se dá por elas quando já estão agarradas ao peito.
Passei a manhã como quem tenta viver normalmente, mas cada acção tinha um atraso, como se eu estivesse meio segundo atrás de mim próprio. Havia uma espécie de aperto leve na respiração, um incómodo que não doía mas cansava. Até o café parecia mais amargo.
À tarde saí na esperança de que o ar frio me limpasse os pensamentos. Caminhei devagar, atento ao nada, como quem procura um sinal que sabe que não vai aparecer. O peso do dia anterior não se soltava, acompanhou-me pelas ruas, entrou comigo nos becos, sentou-se ao meu lado quando parei algures num recôndito. Não era dramático, era persistente. Uma presença silenciosa, mas constante.
À noite percebi que o dia tinha passado sem eu realmente o viver. Passei-o mais por dentro do que por fora, mais nos pensamentos do que nas ruas. E apesar de estar cansado, não era um cansaço físico. Era emocional, desses que só aparecem quando o coração passa demasiado tempo a pensar sem encontrar chão.
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