A Semana do Regresso às Aulas
Outubro de 1975
Semana 3
Na segunda-feira as aulas continuavam adiadas e os dias iam-se estendendo como fios longos, sem nós nem urgências. Acordei com a mesma calma de domingo, aquela sensação de que o mundo andava num tom mais suave. Saí sem destino marcado e fui encontrar os meus amigos para vaguear pela aldeia junto às minas. Há uma leveza nesses encontros que não exige esforço.
Passei em frente à casa da Dila, mas já não senti o aperto antigo. Não houve aquela espera silenciosa por um gesto que não vinha, nem aquele nervoso miúdo que me fazia desviar o olhar. Hoje foi apenas uma casa, uma porta fechada, uma presença tranquila. Talvez seja isto a paz: não a ausência de sentimento, mas o descanso dele.
O resto do dia correu sem pressas. Andámos por aí, eu e os rapazes, como quem estica o tempo até onde ele quiser ir. Às vezes pedalei um pouco, outras vezes sentei-me à sombra a ver as horas passarem. À noite sentei-me um pouco com o meu pai, trocámos duas palavras, vimos televisão. Nada extraordinário. E no entanto senti-me inteiro.
Na terça-feira o Manel apareceu logo cedo como quem sabe que não é preciso convite. Chegou com aquele jeito dele, meio desajeitado, meio divertido, e ficámos um bocado a conversar. Pouco depois juntou-se o Benjamim, sempre pronto para inventar qualquer coisa só para o dia parecer mais cheio. Demos um pequeno passeio, apenas três amigos a andar ao acaso, partilhando frases soltas, risos breves e longos silêncios que não incomodavam.
A certa altura o Benjamim decidiu experimentar uns acordes na guitarra. Saiu pouco mais do que sons soltos, mas serviu para nos entretermos. O Manel tentou acompanhar batendo o ritmo no joelho, sem grande talento mas com muita vontade, e eu limitei-me a ouvir. O dia foi passado em amena cavaqueira. Histórias repetidas, piadas gastas, conversas sem profundidade, tudo aquilo que, mesmo assim, nos faz sentir que pertencemos a algum lugar.
Na quarta-feira o dia começou cinzento. Fomos até ao Porto. O liceu Alexandre Herculano era o destino, para inquirirmos quando começariam as aulas. Sentámos num banco a observar os carros passarem e alguns colegas a atravessar a rua apressados. Entre risos discretos e comentários que só nós entendíamos, descobri pequenos momentos de prazer. Voltámos, mais tarde, sem pressa à nossa terra. À tarde vaguei pelo Alto do Depósito, como quem explora territórios familiares pela primeira vez, sentindo a estranha tranquilidade de dias sem pressa.
Na quinta-feira cedo a Dila passou em frente de minha casa. Um instante breve, quase invisível, mas suficiente para os nossos olhares se cruzarem. Sorriu-me, mas seguiu em frente sem uma palavra, sem um gesto que indicasse que queria parar. Fiquei parado, perplexo, sentindo uma mistura de apreensão, frustração e um ligeiro desgosto zangado. Aquela distância repentina pesava mais do que qualquer silêncio habitual.
O Manel pediu para irmos ter com umas raparigas que se tinham mostrado interessadas nos dias anteriores. Noutra ocasião teria recusado de imediato, mas hoje aceitei. A raiva silenciosa que carregava parecia precisar de sair. Seguimos atrás delas, mas a tentativa não deu em nada. Ainda assim foi bom libertar a frustração. No fim do dia, sozinho, pensei: longe da vista, longe do coração. Perguntei-me se o distanciamento dela era apenas um momento passageiro ou um prenúncio de algo diferente.
Na sexta-feira eu e o Manel decidimos ir novamente atrás das raparigas, mas de nada valeu. Ou estavam a fazer-se de difíceis, ou simplesmente não se interessavam. A frustração cresceu um pouco, mas com ela veio também a resignação. Aprendi mais uma vez que algumas coisas não podem ser forçadas.
O resto do dia decorreu com a monotonia habitual. Ao fim da tarde eu e o Benjamim seguimos para o Porto rumo aos treinos na Academia. Pelo caminho passámos pelo liceu e tivemos finalmente a confirmação de que os horários das aulas haviam saído. As aulas só começariam na segunda-feira seguinte. Um pequeno alívio misturado com ansiedade.
No sábado acordei cedo e seguimos ao liceu para anotar os horários e ver o material que precisaríamos. Era um ritual estranho, meio sério, meio divertido, preparar-nos para a rotina que se aproximava. Aproveitámos a manhã para passear pela cidade do Porto, como quem se despede de uma liberdade que em breve seria retirada. As ruas estavam cheias de vida, mas cada esquina parecia guardar um eco do ano passado. Senti uma mistura de entusiasmo e melancolia.
Depois do almoço, em casa, comecei a organizar o material. Livros, cadernos e lápis tornavam-se pequenas âncoras para o mundo que se aproximava. Mas num instante de distracção surgiram memórias dos encontros com a Dila no ano lectivo anterior, passeios, sorrisos, trocas de palavras que agora pareciam tão distantes e ao mesmo tempo tão presentes.
No domingo encontrei-me com o Manel de manhã para vaguearmos sem rumo definido. O ar estava fresco e o silêncio da vila parecia acalmar a mente inquieta que trazia comigo. Cada esquina lembrava-me encontros e conversas, e uma sensação de leve inquietação começou a crescer. Os últimos dias de liberdade antes das aulas.
Ao fim da tarde eu e o Benjamim fomos para o Porto, desta vez mais centrados, a pensar nos treinos. Pelo caminho comentávamos os planos para a semana, mas o meu pensamento insistia em voltar à Dila. Recordava os encontros do ano passado, os sorrisos rápidos, a forma como ela me olhava. Uma ansiedade misturada com apreensão crescia no peito. O que nos esperaria? Continuaria o olhar tímido e cúmplice ou algo teria mudado?
Fechei o diário com a sensação de que os próximos dias seriam decisivos, e que cada pequeno gesto, cada troca de olhares, poderia alterar a paisagem das minhas emoções.
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