A Semana do Regresso à Rotina
Outubro de 1975
Semana 4
Na segunda-feira as aulas recomeçaram à tarde. Passei a manhã a organizar cadernos e livros, mas a mente estava noutro lugar. Cada minuto parecia arrastar-se, acompanhado de pensamentos sobre o que poderia acontecer, sobre se a veria nos corredores ou na paragem do trólei, se sorriria ou se me ignoraria como da última vez.
Quando chegou a hora fui para o liceu com o coração a bater mais rápido. A Dila não surgiu. Não a encontrei, e senti uma mistura estranha de frustração e paciência. Apesar de não a ter visto havia em mim a certeza de que o momento do reencontro chegaria em breve, inevitável e esperado.
Na terça-feira o despertador trouxe o som da rotina e eu segui os passos de cada manhã com a sensação de que tudo estava no lugar certo, mas ainda incompleto. A escola, os colegas, as salas de aula, tudo retomava o seu ritmo natural, mas a ausência da Dila fazia-se sentir como um vazio subtil, quase imperceptível, mas presente em cada olhar que lançava pelo corredor.
As horas passaram entre exercícios e explicações, mas a mente insistia em vaguear para ela, para o sorriso que não tinha visto no dia anterior, para a possibilidade de cruzar os nossos caminhos a qualquer instante. Voltei para casa com pensamentos entrelaçados entre a rotina e a expectativa.
Na quarta-feira de manhã fui ao posto médico marcar uma consulta para o meu pai. No caminho deparei-me com a irmã da Dila. Trocámos apenas um cumprimento formal e cada um seguiu o seu caminho. Mais tarde, ao reflectir sobre o encontro, senti um pequeno arrependimento por não lhe ter perguntado como estava a irmã e a que horas teria aulas no liceu. A consciência de ter perdido uma oportunidade simples fez-me ficar um pouco inquieto, como se cada atitude tivesse agora um peso maior do que outrora.
A tarde trouxe o regresso à escola, desta vez com apresentações dos professores e a introdução de novas matérias. A presença da Dila continuava a pairar no meu pensamento. Cada frase dita pelos colegas, cada gesto que via nos corredores era interpretado pela minha mente como um possível indício do seu aparecimento.
Na quinta-feira as aulas seguiram o ritmo habitual. Durante os intervalos olhei pelos corredores e jardins do liceu com a atenção dividida, observava os colegas, mas procurava também qualquer sinal dela. O coração acelerava-se ao imaginar que a poderia encontrar a qualquer momento, mas ela não apareceu. A sensação de expectativa crescia, entrelaçada com a monotonia das aulas.
Ao final do dia voltei para casa com a mente inquieta, reflectindo sobre como algo tão simples como um reencontro poderia mudar a rotina de um dia inteiro. A Dila, mesmo ausente, continuava a condicionar as minhas emoções e a despertar uma atenção silenciosa em cada gesto e pensamento.
Na sexta-feira a rotina das aulas ocupava cada minuto, os professores apresentavam novos temas, e eu seguia-os de forma automática, como se parte da minha mente estivesse noutro lugar. Durante os intervalos senti o peso de cada minuto que passava sem a ver. A ansiedade misturava-se com a frustração de não a encontrar, mas também com uma curiosidade silenciosa: que mudanças teria ela vivido desde o último encontro? Que novidades teria para mim quando nos cruzássemos?
Ao final da tarde voltei para casa com o coração pesado e a mente inquieta. Os livros e cadernos aguardavam preparação para a semana seguinte, mas sentia que nada do material importava realmente. A presença da Dila, mesmo que apenas na imaginação, fazia com que tudo o resto parecesse secundário.
No sábado levantei-me muito cedo, eram seis e meia, para ir para o liceu com o Benjamim. As aulas matinais têm este peso estranho, obrigam a despertar rapidamente, a seguir o ritmo sem questionar, e transformam o corpo num autómato que se move entre salas, corredores e vozes familiares.
De tarde, sem aulas, sentei-me sozinho no meu quarto e tentei compreender o que sentia. Já não havia aquela ansiedade quase dolorosa de a encontrar. As emoções, antes vivas e pulsantes, diminuíam gradualmente, como se estivessem a aprender a esperar, a não se entregar ao vento da expectativa. Olhava para os livros e para os cadernos e sentia uma estranha tranquilidade misturada com um leve desapego. Pela primeira vez senti-me capaz de enfrentar um dia completo sem que cada momento dependesse de um reencontro.
No domingo acordei sem pressas, com aquela luz lenta que parece adiar tudo. Encontrei-me com o Manel e o Benjamim para um passeio de bicicleta. Seguimos pelas ruas de sempre, sem grande entusiasmo, mas também sem nostalgia. Foi apenas um passeio, simples e directo, como se o corpo avançasse sem perguntar nada ao pensamento.
A tarde trouxe um jogo de cartas que demorou mais do que devia, a televisão ligada num qualquer programa que servia apenas de ruído, e a música do Benjamim a preencher o ar com as mesmas melodias que já conhecemos de cor. Rimos de pequenas coisas, falámos de tudo um pouco, e o tempo avançou sem se dar por ele.
Ao fechar o diário sentia uma tranquilidade rara. Apenas uma pincelada quase imperceptível que a Dila deixou, um nome que passou pela mente como um sopro, sem perturbar nada, mas também sem desaparecer por completo.
Um domingo sem história, mas cheio da leveza de existir.
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