Entre o Desgosto e a Leveza que Regressa
Novembro de 1975
Semana 3
A semana abriu como quem ainda traz o peso da anterior colado à pele. Não foi uma entrada brusca, foi mais um arrastar de sentimentos, um prolongamento silencioso daquele gesto que ficou a doer mais do que devia. Havia qualquer coisa por resolver, uma espécie de nó mal apertado que não cedia nem rebentava.
Os primeiros dias passaram assim, cada hora marcada por um suspiro discreto, cada pensamento a dar voltas ao mesmo ponto, como um cão que não encontra sítio para se deitar. A imagem repetia-se sem pedir licença, sempre igual, sempre a mesma pequena ferida a reabrir-se. E, no entanto, por fora, tudo decorria com a banalidade habitual, como se o mundo tivesse decidido não se envolver.
Mas há um momento em que até o cansaço se cansa.
Sem aviso, começou a surgir uma leveza tímida, quase desconfiada. Nada de milagres, apenas uma mudança subtil, como quando o vento vira mas ainda não mexe as árvores. O pensamento deixou de insistir com a mesma força, a dor perdeu precisão, e o nome dela começou a ocupar menos espaço dentro do peito.
Houve um dia, talvez sem importância para qualquer outra pessoa, em que simplesmente caminhei sem procurar nada. E isso, que parece tão pouco, foi um sinal claro de mudança. Já não havia aquela urgência de encontrar respostas, nem a necessidade de revisitar o que não se resolveu. Pela primeira vez, senti que podia existir sem estar preso ao que falhou.
A meio da semana, percebi outra coisa, dentro de mim há mais do que aquilo que sinto por ela. Pode parecer óbvio, mas não é quando se tem a idade de achar que um sentimento ocupa tudo. A vontade de escrever, não o diário, mas algo mais cru, mais escondido, apareceu como um reflexo disso. Como se a dor tivesse aberto uma porta que eu ainda não sabia que existia.
E depois veio a confirmação silenciosa, a vida não espera.
Um pequeno desvio de cenário, uma mudança de ambiente, vozes diferentes, risos que não tinham nada a ver com a minha história, e, de repente, o coração respirou melhor. Não por substituição, não por esquecimento. Apenas porque percebeu que não está condenado a um único nome.
Os últimos dias trouxeram essa estranha paz dos que começam a sair de dentro de si. Ainda há ecos, ainda há sombras, ainda há perguntas que não terão resposta. Mas já não há afogamento. Há distância. Há espaço.
E talvez seja isso crescer um pouco, não deixar de sentir, mas aprender a não ficar preso ao que não volta.
A semana termina sem grandes acontecimentos, mas com uma mudança funda, daquelas que não se anunciam, mas ficam. Como uma porta entreaberta.
E do outro lado… já se sente ar.
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