Entre o que se move e o que ainda hesita
Dezembro de 1975
Semana 3
Ao longo dessas horas percebi algo que não soube logo o que era. Quando alguém desaparece dos nossos planos, não leva só a presença. Leva também o desenho do futuro que se tinha feito à volta dela. Fica um espaço difícil de ocupar, como uma divisão vazia que ainda guarda o eco do que foi vivido. Dei por mim a repetir, quase em silêncio, a ideia de seguir em frente. Mas aquilo não encaixava. Talvez não seja uma escolha. Talvez seja apenas continuar a andar, mesmo sem saber bem para onde.
O regresso ao liceu trouxe o mesmo cenário de sempre, mas eu não estava inteiro nele. O Manel percebeu antes de qualquer palavra.
— Então, estás vivo?
— Mais ou menos… mas ainda mexo.
Rimo-nos. Não por haver grande vontade, mas porque às vezes rir é o mais próximo que conseguimos de estar bem. Entre aulas e intervalos, tentei manter-me presente, mas havia sempre qualquer coisa a puxar-me para dentro. Mais tarde, acabámos por tocar no assunto que eu vinha a evitar.
— Achas que isto há-de passar, Manel?
Ele pensou um instante.
— Passar, passa… mas às vezes demora. E às vezes não passa tudo.
Fiquei com aquilo a ecoar. Não trouxe alívio, mas trouxe um certo chão.
Os dias seguintes passaram sem grandes acontecimentos à superfície. As aulas, as conversas soltas, o vai e vem habitual. Mas, por dentro, pequenos movimentos iam acontecendo. Uma frase ouvida quase por acaso, dita sem peso, abriu uma fissura inesperada. Não foi nada de evidente, apenas um lembrete de que o tempo continua a avançar, mesmo quando certas histórias ficam suspensas. Fiquei mais calado, mais recolhido, como quem tenta perceber o que mudou sem saber apontar o momento exato.
Foi num desses instantes banais que tudo se alterou sem aviso.
Estava parado em frente à Papelaria Pirata, a olhar para a montra, a fazer tempo sem saber bem porquê. Não pensava em nada de especial. Nem sequer nela.
E foi então que apareceu. A Dila.
O corpo reagiu antes da cabeça. Um pequeno sobressalto, quase imperceptível, mas suficiente para me tirar do lugar onde estava.
Parou. Olhou para mim. Sorriu.
— Olá.
— Olá…
Não houve mais nada. Nem precisava.
Mas naquele breve espaço de tempo, tudo pareceu ganhar outra densidade. Fiquei por um segundo sem saber o que fazer com as mãos, com o olhar, com o próprio corpo. Respondi-lhe de forma simples, quase automática, mas por dentro abriu-se qualquer coisa. Como se o ar tivesse mudado.
Ela seguiu caminho pouco depois, entrou no troleicarro e desapareceu. E eu fiquei ali, ainda preso àquele instante, a tentar perceber o que tinha realmente acontecido.
O dia continuou, claro. Nada parou por causa disso. Mas eu já não estava no mesmo lugar dentro dele. Havia uma espécie de claridade nova, discreta, difícil de explicar. Não era alegria completa, nem sequer esperança. Era apenas um sinal de vida.
Nos momentos que se seguiram, essa sensação manteve-se como um fundo tranquilo. Caminhei pelos corredores com outra atenção, como se tudo tivesse recuperado uma leve nitidez. Pequenas coisas voltaram a existir, a luz nas janelas, o som distante das conversas, o peso dos livros nas mãos. Não era muito, mas era suficiente para me lembrar que ainda estou aqui.
Mais tarde, voltei ao mesmo sítio. Sem admitir, procurei repetir o acaso. Encostei-me no mesmo lugar, observei os mesmos movimentos, esperei.
Ela não apareceu.
Fiquei mais tempo do que devia. Sabia, no fundo, que não havia motivo para esperar, mas sair dali parecia mais difícil do que ficar. Como se ir embora fosse aceitar qualquer coisa que ainda não queria.
Quando finalmente desisti, não senti propriamente tristeza. Foi mais um silêncio curto, um intervalo entre duas coisas que ainda não sei nomear. No caminho de volta, pensei na distância. Não na que se mede em passos, mas na outra. Aquela que cresce sem fazer barulho.
O resto do tempo decorreu com uma calma quase artificial. Fiquei em casa, entre um livro e a música, deixando as horas passarem sem pressa. Houve momentos em que me perdi em pensamentos que não chegam a ser ditos. Não os mais óbvios, mas os que ficam por trás deles. Imaginei conversas que não aconteceram, gestos que ficaram por fazer, possibilidades que nunca chegaram a existir.
Não com sofrimento aberto. Mais como quem ensaia uma vida que não viveu.
A certa altura, percebi uma coisa simples. Nem tudo precisa de resposta imediata. Há coisas que ficam em suspenso, à espera de um tempo que ainda não chegou.
O dia terminou sem grandes sinais exteriores. Mas, por dentro, alguma coisa se rearranjou. Pequena, quase invisível, mas real.
Antes de adormecer, ficou-me apenas isto.
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