Entre o Silêncio e a Aceitação
Novembro de 1975
Semana 4
A semana começou como um corredor longo e frio, desses onde o eco dos próprios passos faz mais barulho do que devia. Havia ainda restos do que ficou por resolver, não uma dor aguda, mas uma presença constante, como nevoeiro baixo que não impede de ver, mas nunca deixa ver tudo.
Os dias iniciais foram feitos dessa divisão, metade de mim a cumprir o mundo, aulas, cadernos, vozes, e a outra metade a vaguear por dentro, a tentar perceber o que fazer com aquilo que já não volta ao lugar. Não havia drama visível, mas havia um trabalho silencioso, quase teimoso, aprender a não viver virado para trás.
E depois, como se o mundo quisesse lembrar que há coisas maiores do que um coração adolescente, o país estremeceu. O ruído veio de fora, vozes, medo, movimento, mas dentro de mim tudo continuava mais alto. Foi aí que percebi, com uma honestidade crua, que há tempestades íntimas que nenhuma revolução consegue abafar. O exterior pode tremer… mas é o interior que decide se caímos.
A meio da semana, algo começou a ceder. Não de forma brusca, não como quem corta uma corda, mais como quem desaperta um nó. A dor perdeu a urgência, o pensamento deixou de insistir com a mesma força, e surgiu uma espécie de trégua. Pequena, frágil, mas suficiente para respirar.
Houve um esforço consciente em seguir em frente. Não esquecer, isso seria mentira, mas deslocar. Mudar o lugar daquilo que dói. E, nesse gesto quase invisível, nasceu uma paz inesperada, como um intervalo entre duas músicas demasiado intensas.
Mas o destino, que raramente perde uma oportunidade de testar o coração, cruzou os caminhos outra vez.
O encontro, ou melhor, o desencontro, trouxe consigo uma clareza dura. Dois corpos próximos, duas vontades caladas, e um silêncio que disse mais do que qualquer palavra teria conseguido. Não houve confronto, nem tentativa, nem sequer um gesto mínimo para salvar o que já estava a cair. E foi aí que a dúvida deixou de ser pergunta e começou a tornar-se resposta.
Ainda assim, não houve queda. Houve entendimento.
No dia seguinte, a repetição desse encontro confirmou o que já se insinuava, há distâncias que não se medem em passos. E, curiosamente, foi nesse reconhecimento que nasceu a aceitação. Não amarga, não revoltada, apenas lúcida. Como quem olha para o mar e percebe que não há ponte possível, mas também não precisa de atravessar.
E então, quase sem dar por isso, cheguei ao último dia da semana mais leve.
Sem necessidade de procurar, sem vontade de remexer no que ficou. Um dia só meu, fechado sobre si mesmo, com a chuva lá fora e um silêncio bom cá dentro. A escolha de parar, de ficar, de existir sem peso.
E talvez tenha sido esse o verdadeiro desfecho desta semana, não o fim de uma história, mas o fim da luta contra ela.
Porque há momentos em que seguir em frente não é andar, é aceitar.
E, pela primeira vez em muito tempo, aceitei.
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