O Silêncio que se Instala Devagar

Novembro de 1975

Semana 2

A semana começou sem aviso, como se já estivesse a decorrer antes de eu acordar. Não houve ruptura, nem sinal de mudança, apenas uma continuidade quase lisa, daquelas que não deixam marca imediata mas vão gastando por dentro. Levantei-me sem pressa, não por escolha, mas porque nada me puxava para a frente. Quando o dia não promete, o corpo também não se adianta.

Fui para o liceu como quem cumpre um trajecto já gasto. As aulas passaram por mim sem resistência, como água por uma superfície inclinada. Não houve nada que se fixasse, nada que me obrigasse a parar. Era como se estivesse presente só pela metade, a outra parte de mim algures distante, ocupada com pensamentos que nem eu organizava bem.

Voltei a casa com essa sensação de ter estado em movimento sem realmente ter saído do mesmo sítio. O tempo esticava-se, mas não crescia. Fiz coisas pequenas, sem importância, só para preencher espaço. No fim do dia, ficou aquela impressão vaga de que ele não me tinha tocado, e eu também não lhe tinha tocado a ele.

Os dias seguintes vieram quase iguais, mas não exactamente. Pequenas diferenças, quase invisíveis, começaram a acumular-se. Uma espécie de afastamento silencioso, como se eu me estivesse a recolher sem dar por isso. Na escola, as vozes tornaram-se ruído, os rostos perderam definição, e até os momentos que antes me distraíam passaram a não me prender.

Havia, no entanto, uma presença que não desaparecia. Não constante, não explícita, mas sempre ali, como um eco que insiste em regressar. Não precisava de a ver para a sentir. Bastava um intervalo, um instante mais vazio, e ela surgia, não como memória nítida, mas como ideia persistente.

O tempo começou a ganhar outra densidade. Já não era só repetição; era também observação. Dei por mim a reparar em coisas que antes ignorava, a luz nos telhados, o som da chuva a cair miúda, o modo como a cidade parece respirar quando ninguém está a olhar. Como se, na falta de acontecimentos, o mundo se aproximasse.

Mas mesmo nesses momentos havia um fundo de inquietação. Não era dor aberta, nem saudade declarada. Era outra coisa. Uma suspensão. Como se algo tivesse ficado por resolver e, por isso, tudo o resto perdesse um pouco de peso.

Mais tarde, percebi que essa suspensão não vinha do acaso. Desde o último encontro, alguma coisa tinha mudado. Não houve ruptura clara, nem palavras a marcar distância, mas o espaço entre nós começou a crescer. Um silêncio que não era esquecimento, mas também já não era presença.

Agarrei-me ao presente como quem se segura a algo firme no meio de terreno instável. Não porque estivesse bem, mas porque o agora não exige explicações. O futuro, esse, começou a parecer um lugar onde ainda não sei entrar.

Fui-me habituando a esta forma de estar. Nem em queda, nem em avanço. Apenas em espera.

No meio disso tudo, houve um momento que ficou. Um gesto simples, rápido demais para ser explicado, mas forte o suficiente para não ser ignorado. Ao cruzar-me com ela, virou a cara.

Não houve palavras. Nem tempo para pensar. Só aquele movimento seco, imediato, como se evitar fosse mais fácil do que enfrentar.

Fiquei com isso. Não no instante, mas depois. Cresceu em mim como uma pergunta sem resposta. Não pelo gesto em si, mas por tudo o que ele podia significar. Indiferença, talvez. Desconforto. Ou apenas um impulso sem intenção. O problema nunca é o gesto, é o espaço que ele abre para a dúvida.

E a dúvida, essa, não se cala.

Passei o resto do tempo a tentar encaixar aquilo em alguma lógica que me deixasse em paz. Nenhuma serviu. Porque quando não sabemos, inventamos. E aquilo que inventamos raramente nos é favorável.

Ainda assim, há uma parte de mim que resiste a fechar conclusões. Não por ingenuidade, mas por necessidade. Às vezes, um gesto é só um gesto. Outras vezes, é um sinal. E o difícil não é aceitar um ou outro, é não saber qual deles é.

A semana terminou sem resolução, mas não vazia. Ficou marcada por essa transição silenciosa, essa passagem de um sentir claro para uma espécie de nevoeiro emocional. Já não há a mesma certeza, mas também ainda não há desapego.

E talvez seja isso que mais pesa: não o fim, mas o intervalo.



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