O turbilhão por detrás do feriado

Página Anterior - Índice - Página Seguinte

Dezembro de 1975

Semana 2

O feriado entrou manso, quase vazio, mas a cabeça não lhe seguiu o exemplo. Acordei tarde e mesmo assim cansado, como se tivesse atravessado a noite a resolver coisas que de manhã já não sabia nomear. A casa estava quieta, a rua também, e esse silêncio, em vez de acalmar, ampliava tudo o que eu tentava manter em segundo plano. Passei a manhã a fazer pequenos gestos sem importância, como quem ocupa as mãos para não ter de enfrentar o resto. Não resultou. Há dias em que o pensamento insiste, volta ao mesmo ponto, roda sobre si próprio até gastar o chão.

Com o regresso ao liceu, o mundo voltou a parecer organizado. Horários, salas, vozes, o barulho habitual que nos dá a ilusão de que tudo está no sítio certo. Entrei nisso quase por reflexo. O Manel percebeu que eu vinha atravessado, mas não fez disso um assunto. Ficou por perto, como quem segura uma porta aberta caso seja preciso sair. E isso bastou.

As aulas passaram sem deixar grande marca. Fui ficando, linha após linha, como quem copia um texto sem o ler verdadeiramente. Ainda assim, houve um certo alívio em estar ali, no meio dos outros, a partilhar o mesmo espaço, mesmo que por dentro tudo estivesse ligeiramente desalinhado.

A meio da semana, uma frase pequena ganhou um peso inesperado. Disseram-me que a bebé, irmã da Dila, fazia cinco meses. Cinco meses. Fiquei com aquilo a ecoar. Não pela novidade, mas pelo que arrastava atrás de si. O tempo não pára, não espera, não consulta ninguém. Avança. E há partes de nós que ficam onde estavam, como móveis esquecidos numa casa onde já ninguém vive.

Nesse instante, sem querer, veio-me um pensamento mais nítido, quase duro. A ideia de que certas histórias não acabam de forma clara. Não há uma porta a fechar, não há uma última palavra que resolva tudo. Há apenas um afastamento lento, um esvaziar de presença. E o que custa não é só a ausência, é o facto de tudo o que foi pensado para a frente ter ficado sem lugar. Como se alguém tivesse apagado o caminho sem avisar.

Não falei disso com ninguém. Ficou comigo, a circular devagar.

Os dias seguintes trouxeram uma espécie de equilíbrio estranho. Nem bem, nem mal. Apenas suportável. Houve momentos em que consegui estar presente, acompanhar conversas, até rir de coisas simples. Outros em que me perdia sem grande drama, como quem se afasta um pouco da margem e depois volta sem dar por isso.

Num desses dias, atravessei a rua e fui até ao liceu feminino. Sem grande motivo. Talvez só para mudar o ângulo do mundo. Andei por lá com uma curiosidade calma, a observar o movimento, as vozes, a leveza que parecia existir naquele espaço. Senti-me deslocado, mas não desconfortável. Mais como alguém que entra numa sala nova e fica à porta a ver como funciona.

E houve ali um instante breve em que percebi qualquer coisa simples. A vida não se esgota no que falhou. Continua a acontecer noutros lados, com outras possibilidades, mesmo que ainda não saibamos quais são.

O sábado passou quase sem deixar rasto. Um dia cheio de nada, que às vezes é o que mais faz falta. Não pedir decisões, não exigir respostas.

No domingo, fiquei pelo quarto com um livro aberto. Li devagar, com pausas. E nessas pausas, voltavam imagens soltas, memórias que já não ferem da mesma maneira, mas que ainda têm peso. Houve um momento em que me dei conta de algo que não tinha coragem de admitir nos dias anteriores. Não sinto apenas falta do que foi. Sinto falta do que imaginei. Dos dias que nunca chegaram a existir. E talvez seja isso o mais difícil de largar.

Fiquei ali com esse pensamento, sem o empurrar. Pela primeira vez, não tentei afastá-lo.

No fim da semana, nada ficou resolvido. Mas houve uma mudança discreta. Como se o nó continuasse lá, mas menos apertado.

E isso, por agora, já é caminho.



Página (41)


Comentários