Os caminhos que me escolhem

Dezembro de 1975

Semana 4

As férias começaram sem aviso dentro de mim. O corpo acordou cedo, fiel a um relógio antigo, e a cabeça aproveitou o silêncio para se espalhar. Fiquei algum tempo a olhar o tecto, sem pressa de começar nada, como se o dia não me pedisse movimento mas, ainda assim, exigisse presença. Saí para a rua para respirar o frio e ver se o ar me organizava por dentro.

Caminhei pelos sítios de sempre, com aquela sensação estranha de conhecer tudo e, mesmo assim, não me encontrar em lado nenhum. As ruas tinham o ritmo habitual, gente a passar, portas a abrir, cães a ocupar o passeio como se fossem donos do mundo. Eu seguia devagar, mãos nos bolsos, a tentar não pensar… e a falhar com alguma consistência. Quando dei por mim, estava outra vez perto dos mesmos caminhos de sempre, como se o corpo soubesse mais do que eu.

Não encontrei nada de especial, nem ninguém. E talvez isso dissesse mais do que qualquer encontro. Voltei para casa com um cansaço que não vinha dos pés. Era outra coisa, mais funda, como se andar em círculos também gastasse.

A inquietação não abrandou no dia seguinte. Fiz o possível para a disfarçar com pequenas rotinas, mas havia qualquer coisa a empurrar por dentro. Quando a noite caiu, trouxe coragem suficiente para me meter em ideias que, à luz do dia, provavelmente teria abandonado.

Saí sem destino declarado, mas com um plano mal escondido. As luzes de Natal piscavam nas ruas quase vazias, e eu fui andando até parar diante da casa que me ocupava o pensamento há dias. O muro parecia igual a todos os outros, mas naquela noite ganhou importância de palco.

Olhei à volta, mais por hábito do que por medo, tirei do bolso o pedaço de giz e escrevi devagar, como quem sabe que não pode errar porque não haverá segunda tentativa.

“Merry Christmas to the girl who doesn’t know she owns half my thoughts.”

Afastei-me dois passos para ver o que tinha feito. Simples. Demasiado simples, talvez. Mas era o que eu conseguia dar naquele momento. Fui-me embora com o coração descompassado, dividido entre a vontade de apagar aquilo tudo e a necessidade de o deixar ali, exposto.

No caminho de regresso, senti-me estranho. Um pouco ridículo, um pouco orgulhoso. Como quem não sabe se acabou de fazer uma coisa bonita ou uma asneira memorável.

A resposta não tardou muito a complicar-se.

Na manhã seguinte, o Manel apareceu em casa com aquele ar de quem traz um segredo que não é bem segredo.

— Vi a mensagem no muro… foste tu, não foste?

Nem me deixou responder.

— Escrevi o teu nome por baixo.

Fiquei quieto por um segundo que pareceu maior do que devia. Não sabia se havia de o insultar ou agradecer-lhe. Acabei por não fazer nenhum dos dois. Ele tinha feito aquilo que eu não tive coragem de fazer.

O resto do dia foi passado numa espécie de espera silenciosa. A casa encheu-se com o movimento habitual da véspera de Natal, vozes, cheiros, tarefas que se repetem todos os anos como se fossem obrigatórias. Deixei-me levar por isso, como quem aceita um abrigo temporário.

À mesa, tudo aconteceu como sempre. Comida a mais, conversa solta, aquele conforto estranho que só aparece quando estamos rodeados de gente que nos conhece desde sempre. Mais tarde, o Manel e o Benjamim juntaram-se a nós e a noite ganhou leveza. Rimo-nos, jogámos, fingimos que não havia mais nada para além daquele momento.

Mas bastava um silêncio mais comprido para o pensamento voltar ao mesmo sítio. Terá visto? Terá percebido? Terá… sentido alguma coisa?

Não houve resposta. Só a noite de Natal a cumprir o seu papel.

O dia seguinte trouxe a continuação da festa, mas não trouxe descanso. Fui à missa com eles, caminhei pelas ruas enfeitadas, observei as pessoas como quem procura um rosto específico no meio de todos os outros. Não encontrei. E quanto mais procurava, mais percebia que não era disso que precisava.

À tarde, vagueei sem grande rumo, como quem espera que alguma coisa aconteça por acaso. Nada aconteceu. À noite, tentei distrair-me com o que aparecia na televisão, mas a cabeça não quis colaborar. Acabei no quarto, a escrever, a tentar organizar uma confusão que não se deixa arrumar.

Os dias seguintes foram ficando mais silenciosos por fora e mais barulhentos por dentro. Caminhadas sem destino, conversas que não prendiam, risos que duravam pouco. Havia momentos em que parecia tudo mais leve, quase suportável. Outros em que bastava um detalhe para me puxar outra vez para dentro.

Num desses fins de tarde, sentei-me à janela a ver a luz desaparecer devagar. Foi aí que percebi que talvez o problema não fosse o que aconteceu ou deixou de acontecer. Era este espaço no meio, este intervalo entre o que foi e o que pode vir a ser. Um sítio onde não há respostas, só tempo.

No último dia da semana, o peso voltou com mais força. Fiquei em casa mais tempo do que o habitual, a ver a rua como quem espera um sinal que não chega. Quando saí, foi sem convicção. Caminhei um pouco, voltei. Nada mudou.

À noite, sentado no quarto, dei por mim a aceitar uma coisa simples, ainda que desconfortável. Nem todos os dias trazem avanço. Alguns servem apenas para nos mostrar onde estamos parados.

E, mesmo assim, há qualquer coisa que continua a mexer. Pequena, quase invisível. Mas suficiente para não desistir de dar o próximo passo.



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