Refúgio e Companhia

Dezembro/1975

Semana 1

O mês abriu com silêncio. Um silêncio bom, desses que não exigem nada. Fiquei em casa, enfiado num livro, como quem se esconde num lugar onde a vida abranda e deixa de fazer perguntas. Li para não pensar. Li para não ir lá, ao sítio onde a Dila ainda vive sem autorização para sair.

As páginas iam passando e, durante algumas horas, resultou. A cabeça ocupada, o coração quieto. É curioso como uma história que não é nossa consegue, por momentos, substituir a que não sabemos resolver.

Mais tarde, o mundo voltou a entrar pela porta. Estive com o Manel e o Benjamim, cartas na mesa, risos fáceis, aquela leveza que não se explica. Não houve nada de extraordinário, e talvez tenha sido isso que fez bem. Há dias que não pedem significado, só companhia. E eu senti-me acompanhado. Mesmo assim, em certos intervalos, ela aparecia. Não como dor aguda, mas como um fundo permanente, como uma música baixa que nunca se desliga.

No dia seguinte, o silêncio voltou, mas com outro peso. Já não era refúgio, era espaço a mais. O corpo cumpria o costume, mas por dentro havia uma suspensão estranha. Desde que a Dila se afastou, fiquei sem ponto de chegada. Continuo a andar, mas sem saber muito bem porquê.

No liceu, tudo parecia igual, o que só tornava mais evidente que eu já não estou. Ou estou pela metade. Há uma parte de mim que ainda está presa ao que foi, a rever gestos, a inventar respostas que nunca ouvi. E outra parte tenta aprender a viver sem isso. Nenhuma ganha. Vão as duas lado a lado, em silêncio.

À noite, percebi uma coisa que não sei se me consola ou me assusta. O vazio não é só ausência. É também espaço. E talvez seja nesse espaço que alguma coisa nova, um dia, se atreva a nascer. Ainda não sei o quê. Nem sei se quero saber já.

Os dias seguintes trouxeram uma espécie de aceitação cansada. Não daquelas bonitas, cheias de frases certas. Uma aceitação seca. A ideia de que há coisas que acabam mesmo quando não queremos. E que continuar não é uma escolha grandiosa. É só não parar.

A Dila continua a surgir, claro. No meio das aulas, nos intervalos, nos caminhos feitos sem pensar. Surge como lembrança e como hipótese. Às vezes penso no que seria se… mas essa frase já começa a cansar-me. Não leva a lado nenhum, só me mantém parado no mesmo sítio.

Houve um momento no jardim em que senti isso com clareza. Estava tudo igual à minha volta, mas eu não. E talvez seja isso que custa mais. Não foi só ela que se afastou. Fui eu que deixei de ser quem era quando ela estava por perto.

Mesmo assim, há pequenas mudanças. Quase imperceptíveis. Começo a olhar à volta outra vez. A reparar em coisas que não têm nada a ver com ela. Não é esquecimento. É só… menos dependência.

Num desses dias, dei por mim a atravessar para o outro lado, para o liceu feminino. Nem sei bem porquê. Curiosidade, talvez. Ou vontade de provar a mim mesmo que o mundo não acabou com aquele nome.

E não acabou.

Mas também não começou outra coisa. Foi só… diferente. E isso, estranhamente, já chega.

Pelo meio, a vida vai acontecendo. Pequenas histórias dos outros, gestos, silêncios. Mas o centro continua aqui, neste esforço meio desajeitado de me reorganizar sem ela.

No fim da semana, houve um cansaço mais fundo. Não físico. Um cansaço de sentir. Como se o coração estivesse a tentar encontrar uma posição onde doesse menos.

À noite, deitado, voltei inevitavelmente à Dila. Não como esperança, mas como memória que ainda não aprendeu a ficar quieta. Pensei no que imaginei, no que nunca chegou a existir, no que talvez nunca venha a ser.

E ficou uma pergunta, daquelas que não esperam resposta.

O que acontece ao futuro que se perde?

Fiquei ali, a ouvi-la dentro de mim. Não como desespero. Mais como um eco teimoso que ainda não decidiu desaparecer.



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