Prólogo - Fevereiro de 1977

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O mês em que o silêncio começou a falar

Os diários raramente sabem para onde caminham.

São escritos um dia de cada vez, quase sempre sem consciência da importância que determinados momentos virão a assumir. O adolescente que pega na caneta acredita apenas estar a contar mais um dia da sua vida. Ignora que, anos mais tarde, algumas dessas páginas deixarão de ser simples recordações para se transformarem em peças fundamentais da história que está a viver.

Fevereiro de 1977 é um desses casos.

À primeira vista, poderá parecer um mês semelhante aos anteriores. As aulas continuam. Os amigos permanecem os mesmos. As ruas não mudaram de lugar. O inverno ainda cobre as manhãs com o frio habitual. Nada parece anunciar uma ruptura.

Mas há mudanças que nunca começam no mundo exterior.

Começam dentro das pessoas.

E, quando isso acontece, nem elas próprias se apercebem de imediato.

Ao iniciar este mês, António continua convencido de que o maior desafio consiste em conquistar o coração da Dila. É um objectivo simples na aparência: aproximar-se, conquistar confiança, esperar pelo momento certo. Como tantos adolescentes, acredita que o amor é um caminho onde basta dar sempre mais um passo.

A realidade revelar-se-á muito menos linear.

Porque há sentimentos que não encontram resistência na ausência de amor, mas na presença do medo.

É precisamente esse território que Fevereiro começa a explorar.

Ao longo destas páginas, o leitor encontrará poucos acontecimentos extraordinários. Não espere grandes reviravoltas nem soluções repentinas. Este não é um mês construído sobre gestos grandiosos. É um mês feito de pequenas oscilações, quase imperceptíveis, que alteram lentamente o equilíbrio entre duas pessoas.

Há olhares que durarão mais do que uma conversa.

Silêncios que revelarão mais do que muitas palavras.

Momentos aparentemente insignificantes que, vistos isoladamente, poderão passar despercebidos, mas que, reunidos, desenham uma transformação profunda.

É também neste mês que a Dila começa finalmente a deixar de existir apenas através dos olhos do narrador.

Até aqui, o leitor conheceu sobretudo a rapariga que António julgava compreender. A partir de agora começará lentamente a descobrir a adolescente que ela realmente é: uma jovem cheia de contradições, condicionada pelo tempo em que vive, dividida entre aquilo que sente e aquilo que acredita poder mostrar aos outros.

Essa diferença mudará toda a leitura da história.

Porque amar alguém é relativamente simples quando apenas conhecemos a imagem que construímos dessa pessoa.

Muito mais difícil é continuar a amar quando começamos a descobrir as suas fragilidades, os seus receios e as suas sombras.

Também António iniciará uma mudança de que dificilmente terá consciência enquanto escreve estas páginas.

Sem o saber, começará a abandonar lentamente a paixão idealizada para entrar num território muito mais exigente, onde o amor deixa de ser apenas expectativa para se transformar, pouco a pouco, em compreensão.

É uma passagem discreta.

Quase invisível.

Mas será impossível regressar ao ponto de partida.

Talvez seja essa a verdadeira natureza de Fevereiro.

Não é um mês de respostas.

É um mês de revelações silenciosas.

Quando o leitor chegar ao fim destas páginas perceberá que quase nada aconteceu da forma como esperava. E, no entanto, quase tudo terá mudado.

Porque existem meses que transformam uma vida através dos acontecimentos.

E existem outros — muito mais raros — que a transformam apenas pela forma como duas pessoas começam, finalmente, a olhar uma para a outra.

Fevereiro de 1977 pertence a essa segunda categoria. É um mês que não pede pressa. Pede atenção. Porque aquilo que verdadeiramente importa raramente acontece no centro da página. Acontece nas margens, nos intervalos, nos silêncios entre duas frases, onde a adolescência deixa de ser apenas uma idade e começa a tornar-se memória.


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