Epílogo — Abril de 1977


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A estação das primeiras certezas

Há meses que passam pela memória como um simples intervalo entre dois acontecimentos. Abril de 1977 não pertence a essa espécie de tempo. Não se impõe pelo ruído dos factos, mas pela delicadeza das mudanças que foi semeando. São transformações que quase passam despercebidas enquanto acontecem. Só quando o mês termina se percebe que nada ficou exactamente no mesmo lugar.

As férias da Páscoa abriram um espaço invulgar na vida do António. A rotina escolar interrompeu-se e, com ela, desapareceram os encontros diários que até então pareciam naturais. Foi na ausência que a presença da Dila adquiriu um novo significado. A saudade revelou aquilo que a proximidade ainda escondia. Cada reencontro, por breve que fosse, devolvia serenidade aos dias e mostrava que certos afectos não dependem da quantidade de palavras trocadas, mas da paz que deixam depois de um simples sorriso.

Entretanto, outra presença começou a desenhar-se de forma inesperada. A doença da Rita trouxe uma preocupação sincera que o próprio António teve dificuldade em compreender. Não havia intimidade entre ambos, nem promessas, nem projectos comuns. Existia apenas o desejo simples de saber que ela estava bem. Essa inquietação não diminuiu o lugar da Dila. Pelo contrário. Ajudou-o a descobrir que o coração humano não conhece a simplicidade com que tantas vezes o queremos explicar. Há afectos que nascem da ternura, outros da admiração, outros ainda da responsabilidade que sentimos por alguém. Abril não lhe ofereceu respostas. Ensinou-o apenas a deixar de procurar explicações imediatas.

Enquanto os sentimentos amadureciam, o mundo dos adultos começava também a revelar a sua face menos luminosa.

O DIFI, espaço de entusiasmo, amizade e descoberta, foi lentamente tomado pela desconfiança. A mudança de uma fechadura acabou por simbolizar algo muito maior do que uma porta encerrada. Pela primeira vez, António percebeu que um grupo pode perder-se não por falta de ideias, mas por falta de confiança. Foi talvez a primeira grande lição sobre a fragilidade das relações humanas. Nem sempre os conflitos nascem da maldade. Muitas vezes começam quando deixamos de acreditar uns nos outros.

No meio destas experiências, quase imperceptivelmente, surgiu um rapaz diferente daquele que iniciara o mês.

Não mais adulto.

Mas um pouco mais consciente.

Aprendeu que nem todas as decisões exigem pressa. Que nem todos os problemas precisam de um culpado. Que algumas respostas chegam apenas quando lhes damos tempo para crescer. E descobriu, sobretudo, que há pessoas cuja presença nos ajuda a compreender melhor quem somos.

Foi também em Abril que uma simples carta de aniversário ganhou um valor que nenhum dos seus dois destinatários poderia medir naquele instante. As palavras escritas para celebrar os quinze anos da Dila transportavam muito mais do que votos de felicidade. Levavam consigo um cuidado, uma delicadeza e uma confiança que só o tempo permitiria compreender por inteiro. Por vezes, uma história muda de rumo sem que ninguém dê por isso. Basta um envelope fechado, um marcador de livros oferecido com timidez ou um silêncio partilhado durante uma viagem de trólei.

É assim que a adolescência cresce.

Não através dos grandes acontecimentos que a memória costuma guardar, mas por meio desses gestos quase invisíveis que, muitos anos mais tarde, continuam a iluminar o caminho percorrido.

Abril termina aqui.

As árvores já vestiram completamente a Primavera. Os dias tornaram-se mais longos. O calor começa a insinuar-se no universo dos dois adolescentes. E, sem o saberem, António e Dila caminham para um tempo em que a amizade será chamada a enfrentar novas provas.

Porque a vida raramente nos pergunta se estamos preparados antes de abrir a página seguinte.


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