Epílogo — Março de 1977
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Quando a infância começou a despedir-se
Há meses que mudam o rumo de uma vida sem que ninguém se aperceba disso.
Março de 1977 foi um desses meses.
À primeira vista, pouco aconteceu. António e Dila continuaram a encontrar-se todas as manhãs na paragem do troleicarro, a atravessar a cidade lado a lado, a esperar um pelo outro no final das aulas e a regressar a casa entre conversas, sorrisos e silêncios que já dispensavam explicações. O leitor poderia acreditar que a história seguia o seu curso natural, consolidando um amor que parecia ter vencido todas as dúvidas dos anos anteriores.
Mas a verdadeira literatura raramente vive dos acontecimentos.
Vive das pequenas alterações invisíveis.
Tudo começou com uma história que nunca aconteceu.
A falsa gravidez inventada por Manel podia ter sido apenas uma brincadeira de adolescentes. Contudo, aquilo que parecia uma mentira sem consequências abriu uma porta que nunca mais voltaria a fechar-se. Pela primeira vez, António e Dila foram obrigados a olhar para um mundo que sempre lhes parecera distante. O casamento, a maternidade, a responsabilidade e o próprio corpo deixaram de pertencer exclusivamente ao universo dos adultos. Tornaram-se possibilidades. Ainda remotas, ainda embaraçosas, mas agora inevitavelmente presentes.
Nenhum dos dois mudou de um dia para o outro.
As mudanças verdadeiras nunca acontecem assim.
Instalaram-se devagar, quase em silêncio.
Foi por isso que António começou a reparar em cenas que antes lhe passavam despercebidas, uma mulher grávida, um carrinho de bebé, um casal jovem com um filho pela mão. Não eram pessoas diferentes das que sempre cruzara nas ruas do Porto. Diferente era o olhar de quem as observava. Sem dar por isso, começava a compreender que a adolescência não era um lugar onde se pudesse permanecer para sempre.
É também neste contexto que surge Rita.
Não como rival da Dila, nem como uma ameaça ao amor que os une. Rita representa outra coisa. Representa o primeiro contacto de António com uma feminilidade adulta, segura de si, já integrada num mundo onde ele ainda não sabe como entrar. O fascínio que desperta não nasce do amor, mas da curiosidade. É a curiosidade de quem começa a descobrir que existem diferentes formas de ser mulher e que o mundo é muito maior do que o espaço protegido onde cresceu ao lado da Dila.
Enquanto António se transforma por dentro, a relação entre os dois parece atingir o seu ponto mais sereno.
Já não precisam de grandes declarações.
Os seus dias constroem-se em gestos repetidos, um sorriso na paragem, uma conversa interrompida pela chegada do trólei, o reencontro à saída das aulas, a viagem de regresso, a certeza tranquila de que amanhã tudo voltará a acontecer.
É precisamente essa serenidade que torna este mês tão delicado.
Porque o leitor, tal como eles, acredita que há rotinas suficientemente fortes para resistirem ao tempo.
E, no entanto, a vida raramente avisa quando começa a mudar.
No final de Março, António continua convencido de que sabe exactamente quem é, quem ama e para onde caminha.
Engana-se.
Sem o saber, iniciou a viagem mais difícil da adolescência, aquela em que deixamos de olhar para o mundo com os olhos de uma criança e começamos a descobrir que crescer significa também aprender a perder certezas.
Ainda nada se partiu.
Mas as primeiras perguntas já começaram a nascer.
E, muitas vezes, são elas que mudam para sempre o destino de uma vida.
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