Prólogo — Março de 1977
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O princípio das perguntas
Há meses que parecem existir apenas para dar continuidade aos anteriores. Os dias sucedem-se com a serenidade de quem acredita que a felicidade é feita de hábitos, a mesma paragem, o mesmo troleicarro, as mesmas conversas, os mesmos regressos a casa. Tudo parece ocupar o lugar que sempre ocupou.
Março começa assim.
António e Dila vivem um amor que já não precisa de ser confirmado a cada instante. Descobriram, ao longo dos dois anos anteriores, que a intimidade também se constrói nos pequenos silêncios, nos gestos repetidos e na simples certeza de que o outro estará à espera no dia seguinte.
Mas há mudanças que não anunciam a sua chegada.
Entram devagar na vida das pessoas, quase sempre disfarçadas de episódios sem importância.
Basta uma conversa inesperada, uma história contada por um amigo ou um pensamento que surge sem ser chamado para que o mundo deixe de parecer exactamente igual ao da véspera.
É isso que começa a acontecer neste mês.
Pela primeira vez, António olha para a idade adulta não como um território distante reservado aos pais e aos professores, mas como um caminho que, mais cedo ou mais tarde, também terá de percorrer. A responsabilidade, o amor, o corpo, o futuro e as escolhas deixam de ser palavras abstractas. Tornam-se perguntas. Perguntas que ainda não sabem responder, mas que já não conseguem ignorar.
A Dila percorre esse caminho ao seu lado, sem imaginar que ambos começaram a atravessar uma fronteira invisível. Continuam a rir das mesmas coisas, continuam a esperar um pelo outro todos os dias, continuam a acreditar que o amanhã será apenas a continuação do presente.
E talvez seja precisamente essa confiança que torna este mês tão importante.
Porque a vida raramente muda de um dia para o outro.
Muda quando uma pequena semente, lançada quase por acaso, começa a crescer em silêncio.
Só muito mais tarde percebemos em que momento tudo começou.
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