Epílogo - Agosto de 1977
O mês em que os dias começaram a mudar
Agosto termina sem uma conclusão. E talvez seja essa a melhor forma de o terminar.
Ao longo deste mês, António não resolve os seus conflitos nem encontra respostas definitivas para aquilo que sente. O que acontece é mais subtil. Depois da ruptura emocional que marcou os meses anteriores, começa lentamente a ocupar o espaço que ficou vazio.
A vida quotidiana regressa.
Há música, livros, treinos, gravações da rádio, cinema, televisão, conversas, festas, missas e longas horas passadas com os amigos. São coisas simples, algumas quase insignificantes quando vistas isoladamente. Mas, juntas, revelam uma mudança importante. António volta a sair de si próprio. Volta a procurar companhia. Volta a interessar-se por alguma coisa.
Manel continua a desempenhar um papel discreto mas fundamental nesse processo. É muitas vezes através dele que António sai de casa, encontra os amigos ou entra em contacto com novas pessoas. Não há grandes discursos nem gestos de salvador. Há apenas a presença de um amigo que insiste em não deixar que o outro fique sozinho.
E depois há Lina.
A presença dela não apaga Dila. Não deve ser lida dessa maneira. O que surge entre António e Lina pertence a outro lugar da sua adolescência e tem uma natureza diferente. Ainda não existe uma relação definida. António chegou a pedir-lhe namoro e não recebeu uma resposta. Depois tentou recuar, mas também não conseguiu. Entre os dois fica uma espécie de território intermédio, feito de aproximações, hesitações e momentos de intimidade que tornam ainda mais difícil perceber o que são um para o outro.
É precisamente essa indefinição que torna Lina importante neste período.
António começa a descobrir uma dimensão diferente da proximidade entre duas pessoas. Há gestos, beijos e experiências que o surpreendem e que ele próprio ainda não sabe traduzir em palavras. O diário torna-se particularmente revelador quando se aproxima desses momentos. Quanto maior é a intensidade da experiência, maior parece ser a dificuldade de a escrever.
O silêncio passa então a dizer tanto como as palavras.
Também o corpo começa a ocupar um lugar diferente na narrativa. Os treinos de artes marciais não são apenas uma nova ocupação. António dedica-lhes tempo, disciplina e curiosidade. Estuda, pratica, ensina e procura desenvolver o seu próprio sistema. O TCHI-TÉ começa a ganhar forma. Há aqui uma primeira manifestação de algo que será importante no seu crescimento. António começa a construir coisas que são suas.
A música cumpre outra função.
Durante muitas tardes, ele permanece junto do rádio, atento às canções, gravando aquilo que consegue. É uma actividade aparentemente banal, mas acompanha toda esta fase. Enquanto algumas relações se tornam incertas e outras começam a nascer, a música oferece-lhe um território onde pode simplesmente estar. Ouvir, escolher, guardar. Talvez sem o saber, António começa também a construir uma memória.
Agosto não é, portanto, um mês de respostas.
É um mês de passagem.
A adolescência de António começa a afastar-se daquela primeira grande experiência sentimental que dominou uma parte importante da sua vida e abre espaço para outras descobertas. Ainda há insegurança, ainda há contradições, ainda há momentos de solidão. Mas já não existe a mesma imobilidade.
Ele voltou a viver para fora.
E isso é talvez o mais importante que este mês deixa.
Quando Setembro chegar, nada estará resolvido. Lina continuará a ser uma pergunta. O futuro continuará incerto. António continuará a aprender quem é através daquilo que faz, daquilo que sente e, sobretudo, daquilo que ainda não consegue compreender.
Mas alguma coisa começou.
Não como uma revelação súbita.
Devagar, quase sem dar por isso, como acontecem as mudanças verdadeiras.
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