Epílogo - Julho de 1977

 

O que começa a ficar claro

Julho deixa António num lugar diferente daquele em que o encontrou. Não porque tenha acontecido alguma coisa extraordinária em cada um dos seus dias, mas porque, ao longo deles, algumas coisas foram mudando de posição dentro dele. O que no princípio parecia apenas amizade começa a ganhar outra natureza. António ainda não tem palavras certas para tudo o que está a sentir, mas já não consegue fingir que Lina ocupa apenas o lugar de uma amiga.

A mudança acontece devagar. Está no anel que fica com ela, no primeiro beijo, na vontade crescente de a procurar, na inquietação dos dias em que não a encontra, na hesitação antes de lhe pedir namoro e até na dificuldade em aceitar o silêncio que recebe como resposta. Está também na maneira como António começa a reparar nela de outra forma. Não é apenas a vontade de estar com Lina. É a descoberta de uma proximidade que envolve o corpo e que lhe traz sensações novas, ainda difíceis de compreender e, sobretudo, difíceis de escrever.

Na viagem de regresso do último passeio do mês, essa descoberta torna-se mais evidente. António escolhe, com Lina, um lugar onde possam estar mais resguardados e, longe da atenção dos outros, os dois permitem-se uma intimidade maior. O diário quase nada diz sobre o que ali se passa. Fala de casais, de aconchego e de uma despedida que ocupa toda a viagem. Mas por trás dessas palavras está uma experiência que António hesita transformar em escrita. Não por não lhe dar importância. Talvez precisamente pelo contrário.

Há coisas que um rapaz de dezassete anos consegue contar e outras que ainda prefere guardar para si. Mesmo quando escreve sozinho, António conserva pudores. O silêncio do diário não significa ausência de emoção. Neste caso, significa que a emoção é maior do que a capacidade de a referir.

E há ainda Dila. Julho não a apaga. Os encontros breves, os olhares e a sua presença inesperada mostram que o passado continua a existir, mesmo quando António começa a abrir espaço para outra pessoa. A vida afectiva não funciona como uma folha que se vira para começar outra história. Há coisas que permanecem enquanto outras começam.

É isso que torna este mês importante. António não chega ao fim de Julho com certezas. Chega com experiências novas, algumas agradáveis, outras desconcertantes, e com a sensação de que está a atravessar uma fronteira que ainda não sabe definir.

Lina aproxima-se. Dila permanece algures dentro da memória. E António, entre uma e outra, começa lentamente a descobrir que crescer também é aprender a conviver com aquilo que ainda não se consegue explicar.

Julho termina aqui. Mas alguma coisa mudou.


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