Epílogo - Junho de 1977 (Volume IV)
O Primeiro Horizonte
Quando cheguei ao fim destes primeiros onze dias, ainda não sabia muito bem o que tinha acontecido comigo.
À primeira vista, não tinha acontecido nada de extraordinário.
Foram dias cheios de coisas pequenas. Estive com o Manel, fui ao DIFI, à Academia, às marchas, à igreja. Fui ao Porto com o meu pai, fiz um teste para tentar trabalhar nas férias, fui ao rio, participei numa assembleia de jovens, ensaiei, cantei, toquei flautins, li, vi televisão e passei algumas noites na rua.
Também houve os disparates próprios da idade.
Houve a noite de S. João, em que cheguei a casa às cinco da manhã com os pés doridos. Houve o rio, as brincadeiras e a queimadura nas costas. Houve a bicicleta, os ensaios e as canções que gravámos tão mal que acabámos por achar graça àquilo. Houve ainda aquela noite em que nos julgámos capazes de fazer uma grande aventura e acabámos por não conseguir sequer a grade de cervejas que tínhamos ido procurar.
Na altura, tudo isto me parecia apenas a vida a acontecer.
Hoje vejo outra coisa.
Vejo um rapaz que começava lentamente a sair de um lugar onde tinha ficado demasiado tempo.
Não tinha deixado o passado para trás.
Ainda pensava nele.
Ainda havia coisas que me doíam e outras que não sabia explicar.
Mas já não passava todos os dias fechado dentro dessas coisas.
Começava a haver espaço.
O Manel teve uma importância grande nisso.
A sua presença tornou-se mais constante e, com ela, vieram outras pessoas e outras experiências. Não era apenas companhia. Era uma espécie de empurrão para fora de mim próprio.
Eu precisava disso, embora na altura provavelmente não o soubesse.
A tarde da assembleia de jovens talvez tenha sido o melhor exemplo.
Cantámos, fizemos teatro, rimos e divertimo-nos de maneiras que hoje podem parecer simples. Mas nesse dia escrevi que tinha sido uma tarde maravilhosa, «nem igual nem parecido». Não encontrei uma forma melhor de dizer o que senti.
Talvez porque algumas coisas, quando são vividas pela primeira vez, não cabem ainda nas palavras certas.
E eu estava a viver muitas coisas pela primeira vez.
Começava também a pensar no futuro de uma maneira diferente.
O meu pai insistia para eu trabalhar nas férias. Fui fazer um teste para estagiário no Jornal de o Comércio, um pouco nervoso, sem saber o que iria acontecer depois. Não era apenas uma questão de arranjar trabalho. Era também a primeira vez que começava a olhar para os meses seguintes como qualquer coisa que dependia, pelo menos em parte, das minhas próprias escolhas.
Eu tinha dezassete anos.
Ainda me sentia muito rapaz.
Mas havia já qualquer coisa dentro de mim que começava a querer saber o que viria depois.
Talvez seja isso que agora consigo ver neste mês.
Não uma mudança brusca.
Não uma transformação.
Antes um movimento.
Um afastamento lento daquilo que tinha sido e uma aproximação, ainda tímida, de qualquer coisa que eu desconhecia.
O título deste capítulo não poderia ser outro.
Horizonte.
Porque um horizonte não é um destino.
É aquilo que vemos quando olhamos para a frente.
Pode parecer próximo ou distante. Podemos caminhar durante muito tempo sem chegar lá. E, mesmo assim, ele continua diante de nós.
Foi assim que terminei Junho.
Sem respostas.
Sem saber exactamente para onde ia.
Mas já com vontade de continuar a andar.
E isso, para mim, já era uma mudança.
O que ainda não sabia era que, logo a seguir, o horizonte começaria a ganhar rostos, nomes e sentimentos.
Mas isso pertencia já a Julho.
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