Epílogo - Junho de 1977
Onde termina a primeira Primavera
Há caminhos que só compreendemos quando deixamos de os percorrer.
Durante três anos, António caminhou sem saber que crescia.
Acreditava que a vida era uma sucessão de dias, cada um diferente do anterior, e que bastava continuar a andar para descobrir o mundo. Não imaginava que, sem dar por isso, era o mundo que lentamente o ia descobrindo a ele.
Tudo começou de forma tão simples.
Um novo caderno.
Uma escola.
Novos rostos.
Um amigo.
Depois outro.
Os corredores do liceu.
As ruas do Porto.
Os tróleis.
As conversas intermináveis.
As gargalhadas que pareciam não ter fim.
Os projectos que enchiam as tardes.
Os livros que prometiam mundos inteiros.
Havia uma estranha confiança em todas as manhãs.
Como se o futuro fosse apenas uma longa estrada onde nada de verdadeiramente mau pudesse acontecer.
Foi também nesse tempo que o coração aprendeu a reconhecer uma presença antes mesmo de compreender o seu significado.
Um olhar.
Um sorriso.
Uma conversa que se prolongava sem pressa.
Passos que, pouco a pouco, começaram a procurar outros passos.
Sem que ninguém o percebesse, nascia o primeiro amor.
E, com ele, a ilusão de que algumas pessoas caminhariam connosco para sempre.
Mas crescer é descobrir que a vida raramente escolhe os caminhos que imaginamos para ela.
Há palavras que ficam por dizer.
Silêncios que chegam demasiado cedo.
Orgulhos que levantam muros onde bastava um simples gesto para construir uma ponte.
Há instantes que duram apenas alguns segundos e, no entanto, continuam a ecoar dentro de nós durante toda uma existência.
Nenhum adolescente acredita verdadeiramente que um dia deixará de o ser.
A mudança acontece devagar.
Quase sem ruído.
Um dia damos por nós a olhar para trás e percebemos que aquele rapaz que ria com tanta facilidade já não regressa.
Não desapareceu.
Transformou-se.
Levou consigo a inocência de acreditar que tudo podia ser resolvido apenas com a sinceridade do coração.
Em troca deixou uma coisa nova.
A memória.
Porque é a memória que começa agora a acompanhar António.
Não como um peso.
Mas como uma companheira silenciosa.
Ela ensinar-lhe-á que as maiores alegrias não desaparecem quando terminam.
Transformam-se em gratidão.
E que as maiores tristezas também não permanecem para nos destruir.
Transformam-se em cicatrizes.
As cicatrizes nunca nos impedem de continuar a caminhar.
Limitam-se a lembrar-nos dos lugares onde a alma aprendeu a crescer.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido da adolescência.
Não a idade das primeiras descobertas.
Mas a idade das primeiras perdas.
Porque só depois de perdermos alguma coisa compreendemos o valor daquilo que tivemos.
Ao fechar este volume, termina uma Primavera.
Ficam para trás os dias em que o mundo parecia começar em cada manhã.
Ficam para trás as amizades que nasceram sem esforço, os sonhos que ainda não conheciam limites e o primeiro amor, esse território luminoso onde a felicidade e a dor aprenderam, pela primeira vez, a caminhar lado a lado.
Mas a vida nunca fecha uma porta sem entreabrir outra.
Há sempre um caminho que continua para lá da curva seguinte.
Há sempre uma voz que nos chama quando acreditamos ter ficado sozinhos.
Há sempre uma mão discreta que nos impede de parar.
António ainda não o sabe.
Julga que está apenas a deixar para trás um tempo que terminou.
Ignora que os dias mais difíceis da sua juventude ainda o esperam.
Ignora que voltará a amar.
Que voltará a errar.
Que voltará a cair.
E que, cada vez que se levantar, será um rapaz diferente daquele que hoje fecha estas páginas.
Por agora basta o silêncio.
O mesmo silêncio que, um dia, parecia anunciar um fim.
Hoje percebe-se que era apenas o intervalo entre duas estações da mesma vida.
Lá fora, o Verão começa lentamente a ocupar as ruas.
Dentro dele, outra estação prepara-se para nascer.
Ainda não conhece o seu nome.
Mas um dia recordar-se-á dela como os seus Novos Horizontes.
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