Epílogo - Maio de 1977
Epílogo
Quando o silêncio se instala
Há rupturas que acontecem num instante.
Outras demoram dias, semanas ou até meses a revelar toda a sua dimensão.
Maio de 1977 pertence a ambas.
Tudo começou com um gesto mal compreendido. Um gesto tão pequeno que, visto de fora, talvez parecesse insignificante. Mas, para António, foi suficiente para ferir um orgulho ainda demasiado jovem para distinguir a vulnerabilidade da dignidade.
A partir desse momento, o silêncio ocupou o lugar das palavras.
Não houve discussões.
Não houve acusações.
Nem despedidas.
Houve apenas dois adolescentes que continuaram a encontrar-se quase todos os dias, sem conseguirem encontrar a coragem necessária para desfazer um equívoco que crescia de cada lado.
A Dila procurou compreender.
António acreditou que o silêncio o protegeria.
Nenhum dos dois percebeu que cada dia sem uma conversa tornava o seguinte ainda mais difícil.
Entretanto, a vida continuou.
As aulas, os exames que se aproximavam, o DIFI, o karaté, a Biblioteca, a Electro Povo, os livros e as pequenas rotinas foram preenchendo os dias de António. À primeira vista, tudo parecia igual.
Mas já não era.
Sem o saber, começava a olhar para o mundo com outros olhos. Descobria novos interesses, novas responsabilidades e uma forma mais adulta de pensar o futuro. Era um crescimento silencioso, quase invisível, que acontecia ao mesmo tempo que aprendia uma das lições mais duras da adolescência, há palavras que, quando ficam por dizer, acabam por pesar mais do que aquelas que alguma vez chegámos a pronunciar.
Maio não encerra uma história.
Apenas fecha um capítulo.
Há ainda caminhos por percorrer, decisões por tomar e feridas que nenhum dos protagonistas imagina transportar consigo.
Porque, por vezes, é precisamente quando acreditamos que tudo permanece igual que a vida começa, discretamente, a mudar de direcção.
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