Esboços de uma carta...

Esboços de uma carta...

Depois de uma noite turbulenta, onde os pensamentos se recusavam a adormecer e vagueavam como sombras inquietas pelo quarto da minha alma, e de um dia que despontou no horizonte sem que eu lhe sentisse os primeiros passos, prisioneiro da inconstância e da fragilidade destas palavras que se esvaíam entre os meus dedos como areia fina, encontrei-me refém de um dilema que me oprimia o peito e me roubava as horas do dia... Escrever-te uma carta.

Sonhei-a, dissequei-a, reconstruí-a mil vezes, abandonei-a sem nunca conseguir abandonar a amargura que teimava em habitar-me. As mãos tremeram como ramos frágeis à véspera da tempestade, a voz da minha mente vacilou como chama ao vento, mas sempre soube, no mais recôndito de mim, que teria de caminhar até à tua pessoa... que o destino me chamava a enfrentar-te, mais uma vez(?)... Seria possível que estivesse, de novo, a semear dor e sofrimento na mesma alma que outrora ferira, há já cinquenta invernos? Este pensamento era demolidor para quem julgava impensável... repetir o mesmo destino, agora apenas envolto no manto das palavras?

Palavras, palavras... sempre fui seu senhor e seu servo, sempre acreditei que elas, filhas do meu íntimo, podiam trazer um sopro de paz ao mundo de cada coração... e agora... as minhas palavras... tecem, sem querer, o caos... sem intenção... sem ensejo... sem consciência... apenas palavras... nascidas num instante fugaz de impulso, com um só propósito, certeiro como uma flecha... desvendar a dor que se esconde por detrás de outra dor... e nem essa, afinal, era verdadeira.

No fim, quando as palavras se aquietaram como mar depois da tormenta, e o seu sentido profundo se revelou aos meus olhos... tudo começou, enfim, a fazer sentido... a dor que todos trazemos gravada na alma, ainda que adormecida, à espera apenas de um gatilho emocional que a desperte do seu sono... as palavras... têm o poder de reacender essa chama antiga e trazer de volta instantes que preferíamos deixar dormir no esquecimento... Todos nós guardamos, no silêncio do peito, desses momentos... Todos nós sentimos a dor que calamos por amor ou por medo... Ninguém está livre, ninguém está a salvo das palavras que nos tocam nas fibras mais profundas do coração.

Hoje, compreendi, com o coração mais leve, que o poder das palavras transcende, tantas vezes, a própria vontade de quem as escreve, inocente, num momento fugaz de criação, sem nunca imaginar o que elas podem despertar na alma de quem as lê.

António Dias

23/08/2026

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