Palavras virtuais

Vivemos através da luz fria dos ecrãs, 

onde projectamos apenas uma sombra polida, 

uma imagem desenhada pela imaginação. 

Mas o coração não se alimenta de reflexos,

pede a vida que se respira no mesmo espaço.


Na realidade do chão que pisamos, 

sem a armadura das palavras cuidadosamente escolhidas, 

ficamos expostos na nossa verdade. 

Somos mais humanos, mais palpáveis, 

com os defeitos e a beleza crua 

que só a presença permite abraçar.


Ouvir a tua voz sem filtros de entremeio 

é acolher a vibração mais funda do teu peito. 

No olhar directo, sem evasivas, 

apreende-se a gravidade do compromisso 

ou a hesitação que esconde uma fraqueza.


Podes encantar-me com a intenção das tuas frases, 

mas é olhos nos olhos 

que quebramos a barreira do invisível. 

Dissipa-se o verniz do discurso 

e o que resta não é uma pureza inventada, 

mas a sinceridade pura que o olhar jamais saberá ocultar.


Lado a lado, frente a frente, 

no calor de um mesmo instante,

olhos nos olhos, o coração desperta 

e o mundo virtual desmorona-se.



in “Lampejos”

por Castro Dias

Agosto de 2026

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