Pintor de Palavras...
... é o que sou.
Sento-me algures virado para o infinito e a minha tela branca, imaculada, aguarda sem pressa a mão que segura o carvão, que comece a esboçar o que a mente dita.
Primeiro um sarrabisco, depois um traço, uma linha sem destino, todos juntos começam uma cacofonia de lamentos do raspar do carvão na tela que vai deixando migalhas desperdiçadas pelo chão.
Afasto-me... observo num relance o sentido do que acabo de fazer. Não faz sentido... aparentemente. No entanto na minha mente começa a desenhar-se uma ideia, ou deverei dizer um clarão que me impele para a tela e me empurra em movimentos desenfreados, como numa fúria de temporal inesperado, a discorrer o que me vai nos espírito e que brota como chuva delirante, em círculos perfeitos que levam de volta ao início.
Recuo novamente e aquele esboço, esbracejado em todos os sentidos, começa finalmente a fazer sentido. Ainda sinto uma lamúria da mente que pergunta num sussurro qual é o fim desta aventura... respondo com mais traços e linhas, círculos e pintas...
Agora sim, começa a fazer sentido. Já se vislumbra o horizonte da ideia germinada do nada... diria mesmo... que já consigo ver para além do horizonte.
Paro por instantes para recobrar o fôlego do espírito e por momentos deixo sossobrar o ímpeto.
Afasto-me uma vez mais e começo a perceber que a obra nascida da cinza começa a pedir sentido, cor, uma mudança do cenário branco que destaca os sarrabiscos como uma nódoa... um incómodo...
Pego na tinta, no pincel e os sombreados afastam a negrura da tela, esta agradece. Contorno as linhas, defino os espaços, as entrelinhas e a história começa a ganhar cor, vida.
Os riscos convertem-se em letras... estas em palavras... parágrafos... em história contada.
No fim a algazarra que me atormentara o espírito desde o início finalmente é aplacada com um ponto final.
A história desta história finalmente contada, narra a cadência da inspiração que por vezes precisa de romper o silêncio para brotar de uma gota de chuva até alcançar o mar aberto que a acolhe no seu seio.
António Dias
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