Prólogo - Agosto de 1977
Um lugar diferente
Agosto encontra António diferente. Não é uma mudança que se possa medir por uma decisão ou por qualquer acontecimento isolado. Está antes na maneira como olha para Lina, na importância que começa a dar aos encontros com ela e na inquietação que sente quando esses encontros não acontecem. Há coisas que, depois de experimentadas, já não podem ser devolvidas ao lugar onde estavam.
Mas António ainda não sabe muito bem onde está esse novo lugar. Aproxima-se de Lina com uma confiança que há poucas semanas não existia e, ao mesmo tempo, continua a hesitar perante aquilo que a proximidade entre os dois começa a significar. Há sentimentos que já reconhece e outros que ainda prefere deixar sem nome. A própria escrita começa a encontrar limites quando chega a determinadas experiências.
Julho deixou-lhe perguntas. Agosto não chega para lhes dar respostas.
Há também pessoas que continuam presentes sem precisarem de estar ao lado dele. Dila pertence a essa parte da sua vida que não desaparece simplesmente porque outra pessoa começa a ocupar espaço. António ainda não sabe o que fazer com essa permanência, nem precisa de o saber já.
Por enquanto, vive. Procura os amigos, encontra Lina, atravessa os dias, diverte-se, irrita-se, aproxima-se e recua. E, no meio dessa aparente normalidade, vai descobrindo que as relações podem mudar antes de nós próprios percebermos que mudaram.
Agosto começa assim. António ainda não sabe exactamente o que procura. Mas já sabe que algumas coisas, depois de sentidas, deixam de ser indiferentes.
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