Prólogo - Junho de 1977
Prólogo
Novos Horizontes
Há recomeços que não nascem da coragem.
Nascem simplesmente porque a vida continua.
Mesmo quando julgamos que tudo terminou, o tempo recusa deter-se. As manhãs sucedem-se umas às outras, os tróleis percorrem os mesmos caminhos, as ruas enchem-se das mesmas vozes e o sol continua a nascer com a mesma serenidade de sempre.
Só nós somos diferentes.
Durante muito tempo, António acreditou que crescer era acrescentar dias à vida.
Agora começa, lentamente, a descobrir que crescer é outra coisa.
É aprender que cada pessoa que passa por nós deixa uma marca invisível. Algumas permanecem apenas como uma recordação distante. Outras transformam-se em parte daquilo que somos.
Há encontros que nos oferecem felicidade.
Há despedidas que nos oferecem maturidade.
E há amizades que, sem nunca pedirem nada em troca, permanecem ao nosso lado quando deixamos de acreditar em nós próprios.
A juventude possui uma estranha capacidade de voltar a sonhar.
Não porque esqueça a dor.
Mas porque ainda acredita que existe sempre um caminho para além da curva seguinte.
É essa esperança que conduz António neste novo tempo da sua vida.
Não procura esquecer o passado.
Também não sabe ainda para onde caminha.
Limita-se a aceitar os pequenos convites que a vida lhe coloca diante dos olhos, sem imaginar que são precisamente esses gestos simples que mudam um destino.
Um aniversário.
Um grupo de jovens.
Novas amizades.
Conversas que começam sem importância.
Rostos que ainda nada significam.
À primeira vista, nada parece diferente.
E, no entanto, é muitas vezes assim que a vida muda de rumo.
Não através dos grandes acontecimentos.
Mas por causa daqueles dias comuns que, enquanto os vivemos, julgamos iguais a tantos outros.
António ainda não o sabe.
Acredita apenas que está a recomeçar.
E talvez tenha razão.
Porque todos os horizontes são, antes de mais, uma promessa.
Não nos mostram aquilo que vamos encontrar.
Mostram apenas que existe sempre mais caminho para percorrer.
É para esse horizonte que António levanta agora os olhos.
Sem certezas.
Sem respostas.
Apenas com a vontade silenciosa de voltar a caminhar.
O resto...
pertence aos dias que ainda estão por escrever.
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