Amaldiçoado

Segunda-feira, 15 de Maio de 1978


Maldita seja a minha vida, malditos sejam os bocados da minha vida.

Vivi sempre num troço da estrada, aqui e ali numa veleta, sempre fora das cidades, onde o conforto abunda, mesmo nos jardins.

Também nunca tive preocupações e sou um homem feliz.

Os camiões rolam na estrada, na fúria louca de chegarem ao destino, eu, porém, não tenho apeadeiro, nem me importo, sempre julguei mais fácil a vida assim.

Um casal que passa deixa-me pensativo, os rouxinóis fazem-me sonhar e viajar é a minha paixão secreta.

Quando nasci não julguei que vida era fácil, mas nasci e o erro está consumado.

Ao reler estas palavras, percebo que talvez a maldição esteja precisamente nisso. Continuar a andar sem destino, como quem não precisa de chegar a lugar nenhum, mas sentir sempre qualquer coisa a passar ao lado.

Talvez seja essa a minha forma de ser feliz. Ou talvez seja apenas a maneira que encontrei de não pensar demasiado naquilo que me falta.


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