Amo-te... disse um dia
Amo-te…
disse eu nos primórdios da descoberta das emoções.
Que sabia eu do amor para transformar
uma emoção numa frase tão brejeira?
Que emoção era essa que me convidava a alucinar
sob o efeito hormonal do crescimento?
Oh quantas vezes no meu peito palpitavam emoções
que não tinham nome e me deixavam sem fôlego?
Oh quantas vezes aquela emoção
tão sentida morreu nos meus lábios
por inação emocional?
Oh quantas vezes silenciei na tua presença
o turbilhão que tomava o meu peito?
Quantas vezes
urdi projectos para te mostrar
aquilo que era amor e não sabia nomear?
Quantas vezes
o medo de te afastar abafou a voz
que berrava no fundo da minha garganta?
A primeira vez
que disse que amava alguém surpreendeu-me
porque foi fácil demais dizê-lo,
quando contigo era doloroso sequer pensar
naquela emoção que me prendia ao chão.
O amor não é fácil,
nem sequer esta simples palavra
contém a profundidade do seu significado.
Amo-te… disse.
Porém o amor
não deve advir de um momento
de êxtase ou alucinação.
O amor deve ser fruto da amizade,
da partilha, da conspiração mútuas.
O amor não surge do nada,
ele cresce e torna-se viçoso com o tempo,
da mesma forma que uma flor
deve ser regada até finalmente florescer.
Amo-te… disse um dia.
Verbalizei esta palavra
com a emoção no corpo e não no coração
porque este se havia fechado há muito
exclusivamente para ti.
Amo-te…
Disse-o muitas vezes a ti
num simples gesto,
num olhar, num aperto de mão
ou apenas e tão só
na tua companhia…
e tu nunca ouviste a palavra
porque ela não precisava de ser dita…
era sentida.
Amo-te…
disse-te um dia
sem te dizer…
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