Capítulo III - Junho de 1978 - Volume V

Junho chega com António ainda no alto da montanha, mas não ficará lá muito tempo.

Nos primeiros dias, o homem da montanha ocupará quase todo o espaço da escrita. Será profeta, louco, observador e, por vezes, uma espécie de juiz de um mundo que António olha com crescente desconfiança. A sociedade, a liberdade e a própria condição humana vão passar pelo crivo dessa personagem.

Mas a realidade acabará por entrar pela porta.

Os exames aproximam-se e, com eles, regressam preocupações bem mais concretas. O liceu está a chegar ao fim e António começa a sentir que uma etapa da sua vida está prestes a fechar-se. Entre despedidas e fotografias, haverá espaço para outras coisas: o karate, os colegas, velhas recordações e a possibilidade de voltar a encontrar alguém que ainda ocupa um lugar difícil de ignorar.

A montanha também começará a mudar de significado. Aquilo que parecia apenas uma fuga ao mundo tornar-se-á pouco a pouco um lugar de onde António olha para si próprio.

E haverá dias em que a escrita deixará de ser apenas imaginação.

A consciência, a culpa e o passado voltarão a bater à porta. António terá de olhar para algumas coisas que preferia manter à distância. Nem sempre o fará com serenidade. Por vezes haverá revolta; noutras, apenas tristeza.

Pelo meio, Junho trará também noites de festa, momentos de convívio e a vida a acontecer sem pedir licença às inquietações de ninguém.

O mês terminará de uma forma diferente daquela com que começou.

A montanha ficará para trás.

E, quando António fechar mais uma vez o diário, perceberá que escrever sobre o mundo também o obrigou, aos poucos, a olhar para dentro dele próprio.



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