Divagações do presente
Segunda-feira, 8 de Maio de 1978
Hoje à tarde fiquei a tomar conta de uma menina. A minha mãe é ama dela e teve de sair, e eu fiquei com ela. É uma criança pequena, ainda não fala, e adormeceu no sofá da sala enquanto eu lia.
Fiquei a vê-la a dormir. Respira fundo, exala alto, tem a cara descontraída, sem uma ruga, sem nada. Parece que não tem problemas. Talvez seja feliz. Talvez as crianças sejam felizes porque ainda não sabem o que as espera.
E depois pensei: não. Não pode ser. Ninguém é feliz nesta vida. Quem pode ser feliz sabendo-se prematuramente morto? Ela ainda não sabe, e é por isso que dorme assim. Mas um dia vai saber. E vai deixar de dormir assim.
Fui para o quarto abri o diário e deixei que a caneta corresse pelo papel em branco:
Deixemos as ilusões de parte e preocupemo-nos com o que nos rodeia, vejamos com olhos de ver. O presente é onde vivemos e criamos raízes.
Olhem para eles, vejam como nos observam, sentem vergonha e odeiam-nos.
Não sabem que o amor nos aproxima e nos toca. Temos um vasto horizonte que é o nosso mundo, o paraíso dos mortos.
Vejam como ele dorme, como exala sonoramente. Não tem problemas, talvez seja feliz. Não, não pode ser, ninguém é feliz nesta vida de misérias.
Quem pode ser feliz sabendo-se prematuramente morto?
Amemo-nos pela última vez, convertamos os tálamos num prolongamento da vida.
Não sei a quem se dirige isto. Podia ser a mim. Podia ser aos que me olham com vergonha. Podia ser à menina que dorme no sofá, que ainda não sabe nada e por isso é a única pessoa feliz nesta casa. Quando ela crescer, vai perceber que o mundo é isto — pessoas que se odeiam, pessoas que se ignoram, pessoas que morrem por dentro antes de morrer por fora.
Fico com esta imagem: a menina a dormir, e eu a olhar para ela, e a saber o que ela ainda não sabe. Há coisas que não deviam ser ditas. Hoje escrevi-as. Amanhã talvez me arrependa. Ou talvez não.
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