Epílogo - Dezembro de 1977

Entre a perda e o reencontro

Há anos que acabam quando chega o último dia de Dezembro. Este não.

1977 fica suspenso algures dentro de António, como ficam as coisas que não chegaram verdadeiramente ao fim. Foi um ano que começou ainda debaixo de uma perda. Antes de Lina, antes dos novos encontros, antes dos sorrisos e das palavras que haveriam de ganhar outro significado, houve Dila. Houve uma rapariga por quem António se apaixonara e houve um gesto de medo e orgulho que acabou por lhe virar as costas. Não foi ela que deixou simplesmente de estar. Foi ele que, num momento em que não soube lidar com aquilo que sentia, se afastou dela e de tudo o que lhe lembrava aquilo que perdera.

Depois veio a dor.

E a dor, quando é demasiado grande para caber dentro de uma pessoa, começa por lhe diminuir o mundo.

António afastou-se dos outros, das coisas, dos lugares e, de certo modo, dele próprio. Havia pouco interesse pelo que acontecia à sua volta. Os dias passavam e ele passava com eles, mas alguma coisa essencial parecia ter ficado para trás. Não queria aceitar inteiramente o que fizera. Era mais fácil fechar-se do que olhar de frente para a possibilidade de ter sido ele próprio a destruir aquilo que mais queria.

Foi assim que entrou no novo ciclo.

Não entrou nele inteiro. Entrou ferido.

E talvez por isso tenha sido preciso que alguém o puxasse de volta à vida.

O Manel fez aquilo que os amigos às vezes fazem sem saber a importância do gesto. Trouxe-o novamente para o meio dos outros. Apresentou-lhe Lina. E Lina, no princípio, não encontrou em António um coração disponível. Encontrou um rapaz que ainda vivia noutras paragens, preso a uma história que não queria repetir e a uma dor que não sabia abandonar.

Ele não procurava ninguém.

Mais do que isso, não queria procurar.

Já conhecia demasiado bem o preço de se entregar a alguém. Não queria voltar a magoar ninguém e, sobretudo, não queria voltar a sair magoado. O seu amor por Dila continuava a existir, mas era agora um amor sem esperança de retorno. António amava-a sozinho. Não esperava reconhecimento, não esperava recompensa, talvez nem sequer esperasse que ela soubesse quanto ainda ocupava dentro dele. Era um sentimento que já não pedia nada. Limitava-se a existir, como uma ferida que aprendera a não sangrar todos os dias.

Então apareceu Lina.

E Lina não entrou devagar.

Entrou como um turbilhão.

Primeiro foi a atenção. Depois o carinho. Depois a presença constante. E, pouco a pouco, aquilo que António julgava ter perdido para sempre começou a aproximar-se dele outra vez, mas agora de uma forma que não estava habituado a receber. Na sua vida anterior, ele tinha dado muito de si sem esperar que esse sentimento lhe fosse devolvido. Com Lina acontecia o contrário. Ela aproximava-se, procurava-o, entregava-se, queria estar com ele. Dava-lhe aquilo que ele tinha desejado durante tanto tempo sem sequer acreditar que pudesse receber.

E António não estava preparado.

Foi isso que tornou tudo tão intenso.

Lina não lhe ofereceu apenas companhia. Ofereceu-lhe afecto. Ofereceu-lhe confiança. Ofereceu-lhe o corpo e a alma, numa entrega que para ele tinha qualquer coisa de vertiginoso. O rapaz que pouco antes se fechara ao mundo começou de repente a ter alguém dentro dele e alguém à sua espera fora dele.

O vazio começou a encher-se depressa demais.

Talvez depressa demais para quem ainda estava a fazer o luto de outra história.

Por isso, ao mesmo tempo que António se aproximava de Lina, alguma coisa dentro dele continuava a lutar com aquilo que acontecera. A felicidade não apagava a perda. O novo amor não eliminava automaticamente o antigo. E, no meio dessa mistura, começaram a surgir outras emoções, mais ásperas, mais difíceis de dominar.

A raiva.

A raiva contra os outros, contra as circunstâncias, contra aquilo que considerava injusto, contra quem se atravessava no seu caminho. Às vezes parecia-lhe que o mundo inteiro conspirava contra aquilo que finalmente encontrara. Outras vezes era ele próprio que parecia não saber contra quem estava zangado.

E, no entanto, estava feliz.

É talvez essa a contradição mais funda deste ano.

António consegue estar no alto e no fundo quase ao mesmo tempo. Há dias em que a presença de Lina parece bastar para lhe devolver o mundo inteiro. Há outros em que a ausência, o medo, os problemas familiares ou uma simples palavra conseguem arrastá-lo novamente para dentro de si. A euforia e a depressão alternam-se. A esperança cresce e logo depois aparece o receio de a perder. Quanto mais importante Lina se torna, maior é também o medo de voltar a conhecer a dor.

É como se António tivesse saído de uma ferida apenas para descobrir que a felicidade também pode assustar.

Porque agora há novamente alguma coisa a perder.

Durante o ano, ele aprende muitas coisas, embora ainda não saiba que está a aprendê-las. Aprende que o amor não é apenas aquilo que sentimos quando tudo corre bem. Aprende que duas pessoas podem querer estar juntas e, mesmo assim, encontrar obstáculos que não conseguem afastar. Aprende que a liberdade pode parecer muito simples até alguém decidir limitá-la. Aprende que a confiança não existe apenas dentro de uma pessoa. Tem de passar de uma para a outra. E aprende, talvez da maneira mais dura, que amar alguém significa também ficar vulnerável perante aquilo que essa pessoa pode sofrer.

Em Dezembro, essa aprendizagem chega ao seu ponto mais doloroso.

Os encontros com Lina tornam-se difíceis. O medo instala-se. A família dela transforma o que já era complicado numa verdadeira ameaça de separação. António reage com revolta, mas também com medo. Quer lutar contra tudo aquilo e, ao mesmo tempo, começa a perceber que nem sempre a vontade é suficiente.

Mesmo assim, continua a procurá-la.

Continua a esperar.

Continua a acreditar.

No Natal consegue tê-la junto de si e sente que um dos desejos que guardava dentro dele se cumpriu. Pouco depois, porém, a realidade volta a bater à porta. Lina é proibida de o ver. Os encontros passam a ser clandestinos. Cada espera se torna uma prova de nervos. Cada encontro, por breve que seja, ganha um peso enorme.

E é curioso chegar ao fim deste ano e encontrar António ainda tão longe da serenidade.

Ele começou 1977 a tentar sobreviver a uma perda.

Chega ao último dia do ano a tentar proteger aquilo que encontrou depois dela.

Entre uma coisa e outra, houve meses suficientes para ele mudar.

Não deixou de ser o rapaz que entrou neste Volume. A dor de Dila não desapareceu como se nunca tivesse existido. Ficaram cicatrizes. Ele próprio o reconhece quando olha para esse passado. Mas já não vive exactamente dentro dele. Lina ocupou um lugar novo, diferente, inesperado. E talvez tenha sido essa a maior surpresa de 1977. António julgava que depois de uma perda assim o coração se fechava. Descobriu que não. O coração pode fechar-se, pode defender-se, pode jurar que não volta a abrir. Mas basta aparecer alguém que saiba aproximar-se dele para que aquilo que parecia morto comece novamente a mexer-se.

Só que recomeçar não significa começar de novo.

É levar consigo tudo aquilo que aconteceu antes.

É amar outra vez com a memória daquilo que se perdeu.

É sorrir sabendo que já se chorou.

É querer acreditar e, ao mesmo tempo, estar preparado para o pior.

Talvez seja por isso que António termina 1977 tão perto e tão longe da felicidade. Tem Lina. Tem o amor dela. Tem o seu próprio amor por ela. Mas tem também o medo, a raiva, a inquietação e uma necessidade quase desesperada de não perder novamente aquilo que encontrou.

No último dia do ano, quase não consegue estar com ela. A sobrinha está no hospital e a noite não traz a António a celebração tranquila de uma passagem de ano. O ano termina, mas a história não.

1977 foi o ano em que António perdeu uma rapariga por quem estava apaixonado.

Foi o ano em que se fechou sobre si próprio.

Foi o ano em que um amigo o voltou a empurrar para a vida.

Foi o ano em que conheceu Lina sem a procurar e acabou por amá-la sem saber muito bem como isso lhe aconteceu.

Foi o ano em que descobriu que ser amado pode ser tão perturbador como amar.

Foi o ano em que voltou a sentir o corpo, a alegria, o desejo e a esperança, mas também a raiva, o medo e a angústia.

Foi, acima de tudo, o ano em que António descobriu que o coração não obedece à vontade.

E talvez seja essa a razão por que, quando Dezembro chega ao fim, ele não está curado.

Está vivo.

E, depois de tudo o que aconteceu, isso já é muito.



Comentários