Epílogo — Fevereiro de 1978

O que fica por dizer

Fevereiro começou com uma frase suspensa, ela quer falar comigo amanhã. E acabou com um telefone que toca e ninguém atende.

No meio, houve tudo o que não se vê num calendário. A separação aconteceu a 6, num adeus calmo, à uma da tarde, ao pé de uma paragem que ele nunca mais voltou a olhar da mesma maneira. Mas o António não aceitou a separação nesse dia. Aceitou-a por partes, ao longo das semanas, e cada parte custou-lhe um bocado de si.

Fevereiro foi o mês em que ele percebeu que amar não é uma coisa que se resolve. Foi o mês em que descobriu que as palavras que não diz são mais fortes do que as que diz, e que o silêncio, quando se instala entre duas pessoas, não se levanta com um telefonema.

Foi também o mês em que ele começou a escrever de outra maneira. Primeiro com o poema do dardo e da lança, depois com a lista do "se amar é", depois com os versos soltos do sonhador. A prosa foi ficando mais funda, e a poesia começou a aparecer onde antes só havia relato. Isso não é um acidente. É o rapaz a aprender a dizer o que sente sem ter de o explicar.

E foi o mês em que ele conheceu o luto. Não pelo nome ele nunca escreveu a palavra "luto", nem sabia que era isso. Mas a 18 de Fevereiro escreveu, começa o luto da separação. Escreveu-o sem saber o que estava a escrever. E a partir daí, tudo o que se seguiu foi o luto a fazer o seu trabalho, devagar, sem se anunciar. As recordações que torturam, o passar para a reserva, a vela que se apaga, o beijo que o faz reviver e o medo de dizer o que sente.

No fim do mês, ele está no mesmo sítio onde começou, à espera de uma coisa que depende dela e não dele. Mas já não é o mesmo. Aprendeu, em vinte e oito dias, que o amor não se governa, que as palavras chegam tarde, e que o silêncio, quando é nosso, também é uma forma de estar vivo.

Março vai encontrá-lo em cheia. O Douro vai galgar as margens, as estradas vão ficar debaixo de água, e ele vai chegar atrasado ao liceu, molhado até aos joelhos. E vai continuar a pensar nela, mesmo quando o mundo à volta se desfaz. Porque é isso que ele ainda não sabe, que a vida continua a acontecer, com ou sem ela. E que é preciso aprender a vivê-la assim.


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