Epílogo - Janeiro de 1978
Quando as palavras já não chegam
Janeiro começou com a sensação de que alguma coisa estava a nascer.
O quinto diário abriu-se em versos, como se António tivesse encontrado na poesia uma forma diferente de dizer aquilo que a prosa já não conseguia conter. As palavras dirigidas a Lina ganharam outra intimidade. Primeiro tímidas, depois mais entregues, foram-se tornando uma espécie de ponte entre aquilo que sentia e aquilo que ainda não sabia dizer-lhe.
Mas as palavras não conseguem deter o tempo.
À medida que os dias avançam, a confiança começa a perder a firmeza. Há encontros que trazem alegria, mas também há ausências, silêncios e pensamentos que António não consegue afastar. A relação com Lina continua a ser o centro das suas preocupações, mas começa a ser também o lugar onde as suas dúvidas encontram maior espaço para crescer.
A escrita acompanha essa transformação.
O poeta que, poucos dias antes, procurava palavras belas para entregar o coração começa a olhar para dentro de si com uma severidade cada vez maior. O que era declaração transforma-se em interrogação. O que era esperança começa a misturar-se com receio. E, por baixo de tudo, cresce uma inquietação que já não se resolve simplesmente escrevendo.
Nos últimos dias do mês, a mudança torna-se mais evidente.
António sente-se dividido entre aquilo que deseja e aquilo que teme encontrar. Procura testar a própria relação, procura testar-se a si mesmo, procura uma certeza que não consegue alcançar. A sua escrita torna-se mais sombria, mais extrema, mais desordenada. O espelho deixa de devolver apenas uma imagem e passa a devolver perguntas.
É aqui que Janeiro termina.
Não com uma resposta, mas com uma dúvida.
A paixão continua presente, mas começa a revelar o lado obsessivo que António ainda não sabe reconhecer plenamente. A vontade de estar perto de Lina transforma-se, pouco a pouco, numa necessidade de compreender cada gesto, cada ausência, cada possibilidade. A razão tenta acompanhar aquilo que o sentimento já tornou demasiado intenso.
E é precisamente nessa contradição que se encontra a verdadeira passagem para o mês seguinte.
Janeiro não fecha uma história. Fecha, isso sim, uma primeira ilusão de controlo.
António começou o mês a acreditar que podia transformar aquilo que sentia em palavras. Termina-o perante a descoberta de que as palavras também podem abrir portas para lugares interiores onde não é fácil encontrar saída.
Fevereiro aproxima-se.
E com ele, o peso crescente daquilo que Janeiro deixou por resolver.
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