Epílogo — Novembro de 1977

 

Entre a certeza e o cerco

Novembro chegou com a leveza de quem ainda não sabe que traz consigo uma mudança.

No princípio do mês, António parecia viver sobretudo a felicidade de ter encontrado em Lina uma resposta para aquilo que durante algum tempo apenas existira como desejo, expectativa e incerteza. No dia 6, quando finalmente lhe disse «amo-te» e foi correspondido, alguma coisa se tornou clara. Já não era preciso procurar palavras para explicar aquilo que os dois sentiam. Havia agora uma certeza entre eles.

Mas as certezas da adolescência raramente permanecem intactas durante muito tempo.

Depois da alegria vieram os receios. Vieram os planos para conseguir estar juntos, as tentativas para encontrar momentos de privacidade e, pouco a pouco, a consciência de que havia forças exteriores à vontade dos dois. A família de Lina começou a ocupar um espaço cada vez maior naquela relação. Os encontros foram diminuindo, as possibilidades foram-se estreitando e, no final do mês, o cerco já estava claramente montado.

António sentiu essa pressão com a intensidade própria de quem ainda não aprendeu a separar aquilo que pode mudar daquilo que simplesmente tem de enfrentar. Revoltou-se, entristeceu-se, orgulhou-se e voltou a ter esperança. Por vezes julgou compreender tudo. Noutras, nem ele próprio parecia compreender o que lhe acontecia.

Foi também um mês em que começou a olhar para dentro de si com maior atenção.

A experiência de falar em público, os conflitos, as amizades, as dificuldades dos encontros com Lina e as próprias inquietações deram à sua escrita uma dimensão diferente. O diário deixou progressivamente de ser apenas o lugar onde registava o que acontecera durante o dia. Começou a tornar-se o lugar onde tentava perceber aquilo que os acontecimentos significavam.

Aparecem então as perguntas maiores.

A vida e a morte. A liberdade e a autoridade. A religião e o obscurantismo. A vontade individual e a influência dos outros. O certo e o errado. A possibilidade de compreender o mundo e a suspeita de que talvez o mundo fosse muito mais complicado do que parecia.

Até a história de Simão surge nesse território entre a realidade e a imaginação, como uma forma indirecta de pensar sobre aquilo que António ainda não conseguia explicar directamente.

E havia ainda a escrita.

Os versos, as reflexões, as releituras e as divagações mostram um adolescente que começa a descobrir que escrever não serve apenas para guardar acontecimentos. Serve também para lhes dar uma segunda vida. Ao escrever, António revê o que viveu, interroga aquilo que sentiu e tenta encontrar uma ordem onde, muitas vezes, só existe confusão.

No entanto, Novembro não terminou com respostas.

Terminou com obstáculos.

A relação com Lina continuava de pé, mas já não tinha a liberdade dos primeiros tempos. O que antes parecia simples começava a exigir coragem, paciência e resistência. António ainda acreditava que os obstáculos podiam ser vencidos, mas começava também a perceber que querer alguma coisa não significa poder tê-la imediatamente.

Talvez essa tenha sido a verdadeira aprendizagem daquele mês.

António começou Novembro convencido de que finalmente encontrara uma certeza. Terminou-o descobrindo que até as certezas precisam de ser defendidas.

E, enquanto os últimos dias se fechavam sobre Novembro, havia já nele qualquer coisa diferente do rapaz que entrara no mês.

Continuava a ser impulsivo, orgulhoso, sonhador e, muitas vezes, contraditório. Mas começava a observar-se a si próprio. Começava a perceber que sentir não bastava. Era preciso compreender.

O mês terminava.

A história, essa, estava apenas a começar a ganhar outra profundidade.


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