Epílogo — Setembro de 1977
O mês em que comecei a olhar para dentro
Há meses que se atravessam quase sem deixar marca. Setembro de 1977 não foi um desses meses.
António, um rapaz de dezassete anos ainda vive muito perto das coisas simples. A música, os amigos, a Academia, os passeios, o café, os livros, a Lina. São estas as peças visíveis dos seus dias. Mas, por baixo delas, começa a formar-se qualquer coisa que ainda não tem nome.
É talvez por isso que Setembro parece tão importante.
Não porque tenha acontecido alguma coisa extraordinária em cada um dos seus dias, mas porque António começou a olhar de maneira diferente para aquilo que lhe acontecia.
Há um momento a destacar. Aquele domingo em que, depois de uma manhã passada entre caminhos, autocarros, fome e cansaço, António acabou diante de outras pessoas, num lugar que normalmente não seria o seu, a falar de Moisés. Há ali um nervosismo que ultrapassa o simples medo de falar em público. Pela primeira vez, parece que António começa a descobrir que também pode ocupar um espaço perante os outros e que aquilo que pensa pode ser ouvido.
Depois vieram outras perguntas.
Sobre os amigos. Sobre a amizade. Sobre aquilo que se diz e aquilo que se cala. Sobre as intenções dos outros. António começou a desconfiar de algumas pessoas e, ao mesmo tempo, percebeu que estar rodeado de amigos não significa necessariamente deixar de estar sozinho.
Essa descoberta atravessa Setembro quase em silêncio.
Também a religião deixou de ser apenas uma coisa recebida. António começou a interrogá-la, a confrontá-la com o comportamento das pessoas, com aquilo que considera justo ou injusto. A política entrou pelas páginas do diário de uma maneira muito concreta quando o emprego do pai ficou ameaçado. O desemprego deixou então de ser uma palavra dos jornais. Passou a ter um lugar dentro de casa.
E isso obrigou-o a pensar no dinheiro.
No trabalho.
No casamento.
No homem que poderia vir a ser.
É curioso acompanhar esse pensamento porque António ainda está muito longe desse homem e, no entanto, já tenta imaginá-lo. Vê-se casado, pensa na mulher que terá, nos filhos, nos amigos, nos passeios de domingo. Quer amor, mas também quer dinheiro. Quer estabilidade, mas receia aquilo que o futuro poderá trazer. Pensa na Lina e, ao mesmo tempo que se aproxima dela, começa a perceber que gostar de alguém não torna simples tudo aquilo que vem depois.
Talvez seja aqui que Setembro se torna mais íntimo.
António sente desejo e tenta compreender o que fazer com ele. Aproxima-se de Lina, recua, volta a aproximar-se. Há beijos, conversas, silêncios, olhares e coisas que nenhum dos dois parece ainda saber dizer correctamente.
E há limites.
Nem sempre António os reconhece à primeira tentativa. Algumas experiências deixam-no desconfortável e obrigam-no a olhar para aquilo que fez. É importante que isso permaneça nas páginas. Não para o condenar, mas porque também aí existe aprendizagem. António está a descobrir que a outra pessoa não é apenas alguém que queremos compreender. Tem os seus próprios pensamentos, receios, desejos e fronteiras.
No meio de tudo isto, ainda há tempo para olhar para o céu.
Os OVNI aparecem no diário quase como uma porta aberta para aquilo que António não sabe. Ele procura explicações, imagina outros mundos, pensa nas distâncias entre estrelas e na possibilidade de existir vida para além da Terra. Mas termina por reconhecer que, por muito longe que os seus pensamentos possam ir, continua a ser necessário manter os pés assentes na Terra.
Essa frase podia servir para grande parte de Setembro.
Porque António olha cada vez mais longe e, simultaneamente, começa a olhar para dentro.
Frankenstein surge depois, trazendo outra pergunta. Quem é afinal o monstro? O ser criado ou aquele que o criou? António lê a história e encontra nela mais do que uma aventura fantástica. Há qualquer coisa daquela criatura abandonada, incompreendida e revoltada que lhe fica na cabeça.
Pouco depois aparece António Aleixo.
E ali, numa linguagem simples, António encontra outra forma de dizer aquilo que procura. Palavras sem grandes enfeites, mas capazes de ficar. Talvez porque também ele esteja a descobrir que certas verdades não precisam de ser explicadas até ao fim.
Basta deixá-las pousar.
Até a escrita se transforma.
Há dias em que António não sabe sobre o que escrever e, mesmo assim, precisa de escrever. O diário deixa de ser apenas o lugar onde guarda os acontecimentos. Começa a ser o lugar onde tenta perceber o que esses acontecimentos fazem dentro dele.
É uma diferença pequena quando se olha apenas para as palavras.
Mas, para quem acompanha estas páginas de perto, é uma diferença enorme.
É aqui que se vê nascer o António que virá depois.
Ainda confuso. Ainda impulsivo. Ainda cheio de contradições. Capaz de acreditar numa coisa hoje e de a pôr em causa amanhã. Capaz de desejar muito uma pessoa e, ao mesmo tempo, recear aquilo que esse desejo poderá trazer.
Mas já atento.
Ao mundo.
Aos outros.
A si próprio.
Setembro não lhe trouxe respostas. Trouxe-lhe perguntas mais difíceis.
E talvez tenha sido essa a sua verdadeira importância.
Quando termina este mês, não se vê um rapaz que tenha encontrado o caminho. Ve-se alguém parado diante de vários caminhos, a olhar para cada um deles, sem saber ainda qual escolher.
E talvez seja precisamente por isso que estas páginas continuam a falar connosco.
Porque António ainda não sabe quem vai ser.
Nós também não.
Mas, neste Setembro de 1977, começamos a vê-lo tornar-se.
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