Matei-me, mas não morri…
Sábado, 13 de Maio de 1978
Hoje vi uma coisa que não devia ter visto. Não vou dizer o que foi. Não sei se consigo. Sei que fiquei a olhar e que não senti nada, e que isso é o pior.
Estava pouco impressionado com a cena que testemunhara.
Sem dúvida que outro qualquer ficaria transtornado ou mesmo, traumatizado, porém as lágrimas surgiram como quando era ainda uma criança.
Foi uma cena macabra, cheia de ódio. Ninguém viu o que se escondia por detrás da máscara.
Julgaram-me louco porque não me compreenderam. Eu havia visto, mas como podia explicar que me tinha matado e, no entanto, não estava morto?
A dedução era simples, mas com erros na lógica. Um suicídio é um homicídio na primeira pessoa, mas desta vez não, por isso me odiei.
Já estava farto da vida e de tanto egoísmo que me rodeava que não consegui sustentar mais este terror.
Matei-me, mas não morri…
Chorei depois, como quando era criança. Mas não foi pela cena. Foi por mim. Porque percebi que já não sinto o que devia sentir, e que a única coisa que me faz chorar é a ausência disso.
Não sei quem morreu. Sei que estou vivo. E, no entanto, não é bem assim.
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