Palavras…

Palavras…

As palavras, por vezes, inquietam-me o peito — 

não pelo que dizem, 

mas pelo eco estranho 

que ganham na boca alheia, 

pelo espelho torto 

em que se transformam 

quando outros olhos as leem.


As palavras são taças transbordantes de emoção: 

guardam paixões antigas, 

amores que ainda ardem, 

mas também guardam o drama 

que se esconde nas entrelinhas.


A alegria pode florescer entre sílabas, 

pode sorrir, dançar, cantar — 

mas essa mesma alegria, 

por vezes, 

traz consigo o sal das lágrimas, 

como se todo o riso 

tivesse uma sombra gémea.


As palavras são mensageiras antigas, 

correios de fortuna e de festa, 

mas também podem ser 

rio tumultuoso e escuro, 

carregando, na corrente, 

lágrimas infindas, 

dores que não têm margem.


Porém — e digo-o baixinho, 

como quem confessa um segredo — 

todas as minhas palavras 

nascem no coração, 

ali se acendem, 

ali se moldam, 

antes de subirem à voz.


E essas, 

essas não mentem, 

não enganam, 

não escondem intenções sombrias 

capazes de ferir 

a paz e a harmonia 

de quem, do outro lado, 

me lê 

e, por um instante, 

me empresta os seus olhos.


in “Lampejos”

por Castro Dias

Setembro de 2026



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