Prólogo - Dezembro de 1977
Antes que o ano termine
Dezembro encontra António já muito longe do rapaz que, meses antes, atravessara os dias ainda sem perceber bem o que neles procurava.
Desde o Verão, muita coisa se transformara. Houve a dor de uma perda, a descoberta de sentimentos novos, a aproximação de Lina e, depois, a felicidade de uma certeza que Novembro trouxera consigo. Mas nenhuma dessas coisas passara por António sem deixar marca. Cada experiência parecia acrescentar uma camada àquilo que ele começava lentamente a descobrir sobre si próprio.
Os últimos meses tinham sido feitos de avanços e recuos, de entusiasmo e desalento, de momentos em que tudo parecia possível e outros em que até o mais simples encontro se transformava numa dificuldade. E, no meio de tudo isso, havia uma vontade cada vez maior de compreender.
Compreender os outros, mas sobretudo compreender-se.
A escrita acompanhava esse movimento. As páginas do diário começavam a receber mais do que os acontecimentos de cada dia. Recebiam perguntas, ideias, sonhos, receios, contradições e aquelas descobertas que só aparecem quando alguém se atreve a ficar sozinho diante do que pensa.
Talvez fosse essa a mudança mais importante.
António começava a perceber que crescer não era apenas viver coisas novas. Era também olhar para aquilo que se tinha vivido e tentar descobrir o que ficara dentro dele.
Dezembro chega neste ponto de passagem.
O ano aproxima-se do fim, mas há ainda muito caminho pela frente. Algumas coisas parecem querer ganhar forma. Outras permanecem envoltas numa espécie de nevoeiro que só o tempo pode dissipar. E há pensamentos que, uma vez despertos, já não aceitam facilmente voltar ao silêncio.
Será um mês de interrogações.
Talvez também de descobertas.
Porque há alturas na vida em que uma pessoa julga conhecer-se e, de repente, percebe que ainda só começou a conhecer a pergunta.
E Dezembro está prestes a fazer algumas dessas perguntas.
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