Prólogo — Novembro de 1977

Entre o que se sente e o que se diz

Novembro irá encontrar António inquieto.

Haverá ainda coisas por esclarecer, palavras que terão ficado mal entendidas e receios que, por vezes, se tornarão maiores do que aquilo que realmente aconteceu. Ele irá pensar demasiado em algumas conversas, voltar atrás nelas e perguntar a si próprio se terá estragado aquilo que tanto lhe tem custado construir com Lina.

Mas haverá também dias em que bastará estarem juntos para que essas dúvidas percam força.

António começará a olhar para o futuro de outra maneira. A possibilidade de a família partir para Moçambique irá ganhar espaço nos seus pensamentos e, com ela, surgirá uma pergunta difícil, o que poderá acontecer aos dois se a distância deixar de ser apenas uma hipótese?

Enquanto procura respostas, irá escrever.

Pensamentos, versos, desabafos, ideias que nem sempre conseguirá organizar. Algumas páginas nascerão quase sem esforço, como se houvesse dentro dele qualquer coisa que precisasse de sair. E, pela primeira vez, começará a descobrir que também poderá usar a escrita para dizer aquilo que não conseguirá dizer de outra forma.

Haverá situações inesperadas, algumas quase ridículas, outras capazes de o deixarem profundamente magoado. António irá sentir-se observado, incompreendido e, em certos momentos, cercado por pessoas que não verão com bons olhos a proximidade entre ele e Lina.

A relação dos dois começará, por isso, a encontrar dificuldades que não dependerão apenas deles.

Os encontros tornar-se-ão mais complicados. Haverá quem tente decidir onde, quando e quanto tempo poderão estar juntos. António irá ressentir-se dessas limitações e nem sempre conseguirá esconder a revolta.

Ainda assim, haverá um momento que ficará guardado de uma maneira diferente dos outros.

Uma palavra será finalmente dita.

E, dessa vez, António não ficará sozinho com aquilo que sente.

Novembro irá trazer também a primeira experiência de falar perante outras pessoas, novas reflexões sobre o mundo que o rodeia e pensamentos cada vez mais profundos sobre a vida, a morte e o lugar que cada pessoa ocupa nela.

Será um mês em que António irá escrever mais, sentir mais e compreender um pouco melhor aquilo que está a acontecer dentro de si.

Mas algumas respostas ainda terão de esperar.


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