Prólogo - Outubro de 1977
O coração começa a perder o silêncio
Outubro encontrou António num ponto particularmente delicado da sua adolescência.
Os meses anteriores tinham deixado marcas que ele ainda não sabia interpretar completamente. Desde novos amigos, novas experiências e, sobretudo, novas emoções tinham entrado na sua vida, António começara a afastar-se daquele rapaz que, pouco tempo antes, parecia observar tudo à distância, quase como se a vida acontecesse sempre aos outros.
Agora já não.
Havia pessoas que começavam a importar-lhe de uma maneira diferente. Havia encontros que esperava com impaciência, despedidas que prolongava e pequenos gestos que ficavam a ecoar-lhe na cabeça muito depois de terem acontecido.
E havia Lina.
A relação entre os dois continuava a crescer, embora nenhum deles parecesse saber exactamente onde a colocar. António sentia-se cada vez mais ligado a ela, procurava a sua companhia e encontrava nos momentos passados juntos uma felicidade que começava a ocupar um espaço considerável nos seus dias. Mas, ao mesmo tempo, permanecia nele uma inquietação difícil de afastar.
António desconfiava.
Não sabia exactamente de quê, nem conseguia justificar muitas das suas suspeitas. Por vezes bastava uma expressão, uma ausência ou uma situação que nem sequer tinha grande importância para que a imaginação começasse a trabalhar. O ciúme surgia ainda sem se assumir como tal, misturado com insegurança e com aquela necessidade tão adolescente de compreender aquilo que se sente antes de se ter coragem para o admitir.
Por isso, recusava a palavra amor.
Talvez porque lhe parecesse demasiado definitiva. Talvez porque ainda estivesse a descobrir o que significava gostar verdadeiramente de alguém. Ou simplesmente porque dizer “amor” em voz alta tornaria real uma coisa que António ainda preferia manter naquele território indefinido onde cabiam a amizade, a cumplicidade, o desejo e a esperança.
Outubro vai tornar essa fronteira cada vez mais difícil de manter.
O regresso às aulas vai introduzir novamente a disciplina dos horários e das obrigações, mas António começa a descobrir que nem sempre consegue cumprir aquilo que esperam dele. Entre as aulas e os encontros com Lina, surge uma escolha que, para um rapaz de dezassete anos, pode parecer simples e, ao mesmo tempo, trazer consigo consequências que ainda não estava preparado para medir.
Também os amigos continuam presentes. Manel, Victor e os outros vão fazer parte desse mundo que se torna progressivamente mais povoado. António já não vai viver a solidão de outros tempos. Há pessoas à sua volta, há actividade, conversas, deslocações, Academia, escola e encontros.
Mas, no meio de tudo isso, uma pessoa começa a destacar-se.
Lina.
Outubro será, por isso, um mês de aproximação, mas também de dúvidas. Um mês em que António vive momentos de felicidade genuína e outros em que a sua própria sensibilidade lhe vai complicar aquilo que parecia simples. Um mês em que começará a perceber que estar apaixonado — se era disso que se tratava — não significa apenas desejar a presença de alguém.
Significa também sofrer com a ausência.
Esperar.
Desconfiar.
Sentir ciúmes sem saber se havia razão para isso.
E descobrir que uma pessoa pode tornar-se tão importante que até as pequenas coisas passam a ter peso.
António ainda não vai ter respostas.
Mas vai começar a ter perguntas.
E algumas delas não dizem respeito apenas a Lina.
Dizem respeito ao próprio António, ao rapaz que está a descobrir dentro de si sentimentos que nunca antes tinha experimentado com aquela intensidade.
Outubro começava assim, com uma relação a ganhar profundidade, com o coração cada vez menos silencioso e com António diante de uma descoberta que não poderia adiar indefinidamente.
A descoberta de que há sentimentos que primeiro se vivem, depois se compreendem e só muito mais tarde se conseguem compreender.
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